“Mesmo pessoas endividadas querem investir”
Nathalia Arcuri, influenciadora de finanças, CEO do Me Poupe
Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
A necessidade de ampliar o letramento financeiro da população brasileira é um desafio que mobiliza diversas instituições, e também tem sido foco de influenciadores digitais. Reconhecendo o alcance que esses atores vêm ganhando na difusão de informações sobre gestão financeira, desde 2020 a Associação Brasileiro de Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) Anbima, elabora o ranking Finfluence – que fala de investimentos nas redes sociais, em busca de subsídios para contribuir estreitar relações e oferecer subsídios nesse trabalho. Os 515 influenciadores identificados na última edição do Finfluence, com dados do final de 2022, respondem por 1.257 perfis que somaram 165,6 milhões de seguidores – lembrando que uma mesma pessoa pode seguir mais de um perfil.
Entre os destaques do ranking está Nathalia Arcuri, do Me Poupe, que há oito anos iniciou seu trabalho de orientação sobre gestão financeira. Nesta conversa para o Blog, ela comenta o momento de alta inadimplência no Brasil e a necessidade de se pensar no letramento financeiro desde cedo.
Qual foi sua motivação para trabalhar com educação financeira?
Minha preocupação inicial com dinheiro partiu de uma necessidade pessoal. Na minha família, não havia o conceito de poupar, apenas a consciência de viver como o que se tem. Já dentro da minha atividade como jornalista, observava que a questão do dinheiro ia além de ter as contas em dia; mexia com a autonomia das pessoas. Impressionava-me como a violência doméstica no Brasil estava estreitamente relacionada com dependência financeira das mulheres – essa inclusive foi a condição que me despertou o desejo de tratar de educação financeira. Então, em 2012 desenvolvi a marca Me Poupe; em 2014 lancei um blog e a partir de 2015 passei a produzir conteúdo para Youtube e mídias sociais. Buscamos uma linguagem simples para mostrar que esse conhecimento é para todos que desejam conquistar objetivos como segurança, conforto.
Hoje a Me Poupe é uma empresa que tem cinco professores, três influenciadores e 70 funcionários. Somando todas as redes e perfis, contamos com 15 milhões de seguidores. Nosso público é majoritariamente feminino – elas representam 60% da base de seguidores e 80% do 1 milhão de alunos que já se registraram em nossos cursos.
Como o recente aumento da inadimplência influenciou a produção de conteúdo da Me Poupe?
A demanda que recebemos reflete o cenário nacional. Há muita procura para gestão de dívidas, como selecionar qual dívida pagar primeiro, de que forma, e uma demanda muito alta por formas de aumentar a renda. Por exemplo, dicas práticas como identificar plataformas seguras desse tipo de oferta – para evitar golpes como esquemas de pirâmide. Outro tema muito buscado é sobre quando é melhor alugar ou financiar um imóvel.
Também tem havido grande procura por informações de investimento. A realidade no Brasil é que mesmo pessoas endividadas querem investir, pois entendem que sua renda pode crescer. Vale destacar que, quando falamos em renda variável, não tenho certificação para recomendar investimentos, e não o faço. É uma responsabilidade social que prezamos. Mas trouxemos para nossa equipe especialistas capacitados para isso, pois a demanda é grande.
Em sua avaliação, qual o principal desafio das instituições oficiais para educar seu público?
Ainda há pouca conscientização na ponta do mercado, que é onde a educação financeira deveria acontecer de fato: antes de uma pessoa tomar crédito, informar sobre o risco que ela está fazendo ao parcelar uma compra no cartão de crédito, ou as implicações ao pegar mais de um crédito consignado, por exemplo. Poucas pessoas entendem o quão nocivo é, para a vida delas, fazer um título de capitalização na esperança de um prêmio em um em vez de buscar um investimento de verdade. Mas aqui se trata de uma questão de interesses de mercado, o que reforça a importância de que a educação financeira aconteça desde cedo, nas escolas.
Como vê a ampliação da oferta através das fintechs e do acesso digital?
A ampliação da oferta de crédito com os bancos digitais tampouco veio acompanhada de um aumento adequado de mais educação. Pesquisa da Serasa, por exemplo, mostra que mais da metade da população usa três ou mais cartões de crédito. Pulverizou-se o risco, no momento em que temos um nível histórico de inadimplência.
É preciso ampliar a educação financeira no ensino, do fundamental ao médio. Não teremos um país sustentável economicamente se não tivermos uma boa educação de base, e que inclua letramento financeiro.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.