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12 Set 2022

“O debate da desglobalização não afeta a dinâmica do investimento direto estrangeiro no Brasil”

Lia Valls, pesquisadora associada do FGV IBRE

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Confira, em primeira mão, trechos da entrevista de Lia Valls, pesquisadora associada do FGV IBRE, à Conjuntura Econômica de setembro:

O aumento de preços das commodities exportadas pelo Brasil em função da guerra na Ucrânia beneficiaram o país na primeira metade do ano. Pode-se esperar que o setor externo continue colaborando?

No acumulado até julho, o aumento do valor exportado e importado  - respectivamente de 20,1% e 31,6% em relação ao mesmo período de 2021 - deveu-se especialmente ao aumento de preços, já que em volume a alta das exportações foi menor, de 0,6% e as importações caíram 0,6%. Ou seja, a corrente de comércio tem se recuperado, talvez não tanto quanto se imaginava, e graças a um aumento de 19,2% nos preços das exportações e de 32,1% das importações, como mostra o Icomex do FGV IBRE de agosto.

Quanto às perspectivas, ainda vivemos sob muita incerteza O petróleo registra queda de preço, mas a Rússia já sinalizou a possibilidade de novas interrupções no fornecimento, e os países da Opep também demonstraram a intenção de segurar a oferta. No caso brasileiro, entretanto, sabemos que a alta do petróleo beneficia o país por um lado, mas afeta ainda mais na conta das importações. No caso da soja, ainda não há elementos que apontem a novos aumentos. A grande interrogação nesse campo é a China. Se conseguir recuperar o crescimento e fechar o PIB de 2023 em 5,5% será uma ótima notícia, pois teria impacto positivo sobre as exportações brasileiras. Por enquanto, entretanto, as estimativas indicam um cenário sem grandes aumentos de preço. O milho tem mostrado bom desempenho, e a carne tem sido um pouco prejudicada pelo aumento de fornecimento de carne suína russa para a China, o que tende a frear um crescimento de demanda do produto brasileiro. 

O importante, de fato, é saber o que vai acontecer no cenário da economia mundial. Há projeções de que a Alemanha entre em recessão já no outono, impactada pela crise energética. Como carro-chefe da União Europeia, a tendência é de que complique ainda mais o cenário da região. Nos Estados Unidos, a expectativa é de manutenção do aperto de juros e, na América do Sul, o cenário tampouco é tranquilo.  A Argentina, destino para o qual registramos aumento das exportações este ano (de 13,9% de janeiro a julho em relação ao mesmo período de 2021), não parece estar em situação para manter esse mesmo ritmo. O Chile, que em 2021 foi o quinto maior mercado para os produtos brasileiros, vive um período de turbulência política que pode afetar a economia. E ainda é preciso monitorar o grau das tensões entre Estados Unidos e China, que ao invés de se reduzirem, têm se acentuado, com o presidente Joe Biden sinalizando não se preocupar com esse cenário, classificando o país de autocracia.

A guerra na Ucrânia e o aumento da tensão Estados Unidos x Rússia podem alimentar a tendência de uma desglobalização, apontada desde o início da pandemia de Covid-19? Em que isso poderia beneficiar o Brasil?

Essa debate de desglobalização não afeta muito nossa dinâmica, até porque nem somos tão globalizados. Essa é uma discussão mais centrada em Estados Unidos e China. Para os americanos, desglobalizar é retirar um pouco mais de investimento da China em algumas cadeias que consideram mais sensíveis, como a de semicondutores e componentes eletrônicos.

Considera que a estratégia de reduzir a concentração industrial na Ásia pode ser mais exitosa no governo Biden do que com Trump?

Na verdade, a forma com que Trump escolheu para enfrentar a China foi declarar guerra comercial. Biden, por sua vez, está de fato promovendo um pacote de investimento e financiamento, injetando recursos para a fabricação de semicondutores e em outros setores que considera estratégicos. E como nos Estados Unidos olhar a China como ameaça é uma questão bipartidária, essa estratégia tende a seguir. Mas também temos que lembrar que nem tudo é cadeia global.

No caso de uma possível disposição ao nearshoring (terceirização de atividades produtivas em países próximos geograficamente), isso tenderia a beneficiar majoritariamente o México, que perdeu investimento para a Ásia e agora pode recuperá-lo. No caso do Brasil, muitos analistas concordam que o país não seria o primeiro candidato natural para os americanos. Claro que poderia ser beneficiado, mas entre aquelas empresas que também têm interesse em explorar o mercado doméstico. Olhar o Brasil prioritariamente como plataforma de exportação, entretanto, não seria o caso. Também é preciso lembrar que esse reposicionamento não implica uma debandada total do investimento americano que hoje está na Ásia. Os movimentos se concentram nos setores considerados nevrálgicos.

Considera o atual governo bem-sucedido em sua proposta de liberalização comercial?

Houve um trabalho discreto da Secretaria de Comércio Exterior que resultou em medidas como um aprimoramento do Portal Único (que registra e controla as operações de comércio exterior), reduzindo a burocracia. Houve também uma ênfase em procedimentos aduaneiros e em reduções tarifárias pontuais em bens intermediários e de capital fora da Tarifa Externa Comum (TEC) do Mercosul, mas sem uma reforma tarifária efetiva. Em termos de acordo comercial, houve o acordo do Mercosul com a Associação Europeia de Livre Comércio (Efta na sigla em inglês), que já estava sendo negociado desde 2017, mas nada além. É preciso lembrar, entretanto, que tivemos a pandemia, que tornou o comércio internacional confuso e reduziu o espaço para negociações. E, no caso da adesão do país à OCDE, o país continuou cumprindo a agenda, pois se trata de um processo demorado.

Variação (%) no volume e preços de exportações e importações
acumulado jan/jul de 2022 em relação a igual período de 2021


Fonte:Icomex FGV IBRE com dados da Secretaria de Comércio Exterior.

No caso da proposta de Lula de impulsionar uma agenda em torno dos Brics, qual seria o benefício para o Brasil diante da atual conjuntura?

Para o país, no momento, o melhor cenário é buscar uma posição de neutralidade. Dadas as incertezas que observamos, não é adequado buscar alinhamentos com ninguém. Conseguimos, por exemplo, sobreviver à Guerra Fria sem grandes alinhamentos, ainda que tenha havido episódios em que estes aconteceram, no início do governo Castelo Branco, e com o presidente Dutra. Assim, enquanto durar esse cenário de incertezas, manter uma posição diplomática neutra, reforçando a importância do multilateralismo, será o melhor a fazer.

Nesse sentido, então, defender uma estratégia sul-sul estaria fora de contexto?

Não exatamente. Pensar uma estratégia sul-americana, por exemplo, é importante. A ideia de que para se ter maior liderança no mundo é preciso ter garantia da sua liderança regional, que dominou a política externa nos anos 1980, é algo que está voltando nesse mundo mais fragmentado. Algumas correntes, inclusive diferentes, retomam essa questão até pela sensação de que nos últimos anos o Brasil ficou marginalizado internacionalmente. E, para voltar à arena global com posição fortalecida, precisaria retomar sua importância regional.

Liberaização comercial: país ainda registra altos níveis tarifários
tarifa média nominal aplicada (%)


Fonte: OMC.

Em que medida a sequência de choques sofridos pelo mundo pode influenciar a agenda externa brasileira no longo prazo? 

Recentemente, o Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes) publicou o documento Integrar para Crescer, que tem como base a defesa de liberalização comercial é chave para o desenvolvimento econômico do Brasil, ressaltando o atraso do país nesse processo. Para os coordenadores do documento, inclusive, parte dessa liberalização sequer deverá acontecer via acordos comerciais, pois isso implicaria ter de ceder em outros temas como serviços, que não interessariam ao Brasil. Uma liberalização unilateral estaria, inclusive, sinalização uma não-discriminação, algo positivo dentro de uma conjuntura de polarização Estados Unidos-China. No evento de lançamento dessa proposta, entretanto, o ex-presidente do BNDES Luciano Coutinho ponderou a volta de políticas industriais nas principais economias do globo, apontando que o ideal de globalização com total abertura entre países não aconteceu, e as políticas públicas voltaram a estar na agenda. Até para acelerar processos urgentes, como o de transição energética, onde a participação do governo ganha importância. No caso brasileiro, temos que lembrar que o setor sensível não é a agricultura, mas a indústria. Então Coutinho defendeu que uma política de exportação hoje não deveria se limitar a uma agenda de liberalização, mas sim incluir políticas que garantam a competitividade da indústria, como a reforma tributária. 

A redução da relevância do Brasil como ator internacional se deve em boa parte à relação do atual governo com o tema ambiental - mais especificamente, o desmatamento da Amazônia. Considera este o ponto mais relevante para reposicionar o país no cenário externo?

A agenda ambiental é um tema importante, e é possível recuperar esse ativo, mostrar que os últimos anos foram um interregno, mas que a questão do meio ambiente, bem como a proteção a populações tradicionais, o combate à desigualdade são um compromisso de Estado. Temos um histórico positivo nesse campo.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.