Voltar
10 Mar 2022

“Financiamento do setor de saneamento muda de preço, mas não desaparece”

André Pires, CFO da empresa de saneamento Aegea

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

No Brasil, o saneamento é considerado um dos setores mais promissores para atração de investimento em infraestrutura nos próximos anos. Como avalia a contribuição do novo Marco do Saneamento, e como este tem colaborado para a expansão da operação da Aegea?

A Aegea foi criada em 2010, e iniciou com duas concessões – de Campo Grande (MS), a Águas de Guariroba, e a concessão da região dos Lagos (RJ), a Prolagos. Hoje estamos em 154 cidades, 13 estados, e servimos uma população de 21,4 milhões de pessoas. Um dos eventos transformacionais da empresa sem dúvida foi a vitória nos dois principais blocos do leilão da concessão da Cedae, no Rio, no ano passado (totalizando outorga de R$ 14,5 milhões, Capex estimado em R$ 24,4 bilhões, e cujas áreas de concessão atendem a 9,8 milhões de habitantes).

O novo Marco do Saneamento estimulou esse processo, ainda que a estruturação do projeto de concessão da Cedae tenha ocorrido antes de sua promulgação. Ainda que não contenha necessariamente as mesmas metas contratuais estabelecidas na lei (cobertura de 99% para abastecimento de água e 90% para coleta e tratamento de esgoto até 2033), está muito alinhada com ela. E consideramos que, daqui para frente, haverá uma aceleração de projetos.  Hoje nossa participação, que é de 50% no mercado privado de saneamento, representa apenas 20% do mercado total. Estimativas indicam que precisaremos de R$ 700 bilhões até 2033 para fazer frente às metas definidas no Marco do Saneamento. Portanto, ainda será preciso muita ajuda do setor privado, e parte importante do nosso desafio é equalizar a estrutura de capital.

A atual conjuntura político-econômica brasileira tem dificultado a captação de recursos para sustentar as operações em saneamento?

Historicamente, o financiamento do setor sempre se deu através de bancos de fomento, como BNDES e a própria Caixa. Mas hoje o mercado entende melhor o negócio do saneamento. Além disso, é um setor que já vem com a característica ESG (ambiental, social e de governança corporativa, na sigla em inglês), aumentando sua atratividade.

Assim, digo que há interesse grande, e as fontes estão aí. Se vai ficar difícil ou mais fácil, dependerá das condições de mercado. Mesmo com o mercado mais volátil como observado nos últimos meses, entretanto, não temos visto o financiamento desaparecer. Ele muda de preço, pois se as taxas de juros aumentam, naturalmente fica mais caro. Mas de maneira geral o mercado bancário privado e de capitais apendeu melhor com o setor e tem se interessado em participar.

Dois fatores têm sido apontados com certa preocupação por analistas para a consolidação do Marco do Saneamento. O primeiro é de certa lentidão no processo de uniformização regulatória do setor, a cargo da Agência Nacional de Águas (ANA). E, o segundo, o destino das empresas estatais de saneamento que não conseguirem provar capacidade financeira para honrar os investimentos previstos no Marco – a lei prevê como prazo 31 de março para que estar apresentem essa comprovação, sob pena de perder os contratos. Considera que estes efetivamente são temas determinantes para a consolidação da lei?

No caso da ANA, temos que lembrar que, diferentemente de outras reguladoras, seu objetivo é emanar as diretrizes gerais, mas a regulação ainda fica a cargo das agências locais. Por isso, não vejo esse como um ponto crítico para a evolução do setor. Claro que uma uniformização dessas diretrizes é positiva, mas a Aegea já tem crescido nesse modelo de regulação regionalizada sem impeditivo.

A questão do decreto de viabilidade financeira, por sua vez, realmente é um tema que não está muito claro. Existe um prazo estipulado, final de março, para que de alguma forma as companhias provem sua capacidade de cumprimento das metas, caso contrário os contratos estariam disponíveis. Isso abre oportunidades para as empresas privadas, pois aumentarão as chances de cidades ou regiões buscarem um novo concessionário para operar o serviço de água e esgoto. Mas acho que a tendência é de que esses contratos não caiam da noite para o dia. Ainda deveremos ter um processo de transição.

De qualquer forma, é muito difícil imaginar que esse processo de aumento de participação dos privados no setor seja paralisado ou desacelerado em função desse tema. Digo isso porque hoje está claro que os estados e municípios que fizeram esse movimento de conceder suas operações se beneficiaram sob vários aspectos, tanto do ponto de vista fiscal, levando em conta outorgas que foram pagas, como do ponto de vista da qualidade do serviço. Veja o caso de cidades em que operamos há algum tempo, como as concessões Águas de Guariroba e Prolagos. Lá, onde a cobertura de esgoto já superou 80%, houve queda de 65% nos gastos públicos em internações hospitalares decorrentes de doenças por veiculação hídrica. Sem falar na melhora do meio ambiente, como é o caso da lagoa de Araruama, na região dos Lagos que estava morta no começo dos anos 2000 e foi completamente revitalizada.

Vários setores econômicos têm sofrido com o impacto da pandemia nas cadeias de suprimento, que ainda não foram normalizadas. Como esse problema afeta o setor de saneamento? Ainda é uma preocupação em 2022?

Ainda é um fator preocupante para este ano, sim. Em 2021, tivemos o reflexo do que vimos em outros setores, de aumento de custo e mesmo falta de alguns materiais, matéria-prima em geral. No caso da nossa operação, entretanto, o investimento é mais pulverizado. Não temos grandes projetos de capex (despesa de investimento), como acontece na indústria pesada. Então, buscamos lidar com a situação investindo na construção de um relacionamento de longo prazo com nossos principais fornecedores, para os quais éramos compradores eventuais. A cadeia de fornecimento para o setor de saneamento não é tão desenvolvida; então, passamos a costurar esse relacionamento, com um programa de aquisição de longo prazo, garantindo para o fornecedor que ele terá uma linha de produção fechada conosco, buscando dessa forma garantir esses insumos.

Quando olhamos para os nossos custos, o principal da linha de despesas operacionais é a mão-de-obra, seguida de energia, e logo alguns materiais, especialmente produtos químicos. Na parte de energia elétrica, hoje 80% do nosso consumo já estão contratados no mercado livre, o que nos permite certa definição em relação à margem que podemos atingir, mitigando esse risco de preço. E, do ponto de vista do negócio em si, vale lembrar que nas diversas concessões que operamos nossa receita é contratualmente indexada à inflação.

Em fevereiro a empresa divulgou os resultados de 2021, apontando lucro triplicado no quarto trimestre em relação ao mesmo período de 2020. A que se deve esse aumento?

Tivemos um 2021 realmente muito forte, por um conjunto de fatores. Primeiramente, a maturação de algumas operações, mais especificamente, três PPPs: a da coleta e tratamento de esgoto na região metropolitana de Porto Alegre (com a concessionária Ambiental Metrosul); outra na região metropolitana de Vitória (ES), com a Ambiental Cariacica; e o mesmo serviço de coleta e tratamento de esgoto para todas as cidades do Mato Grosso do Sul. Na medida em que se investe, especialmente na expansão de rede de esgoto, amplia-se a cobrança e isso se reflete nos resultados. No caso do quarto trimestre, também já tivemos a contribuição da Águas do Rio (Cedae). Começamos a operar em 1 de novembro, e esperávamos um resultado próximo de zero ou negativa, por estar no início do projeto. Mas acabamos registrando um resultado de R$ 120 milhões através da equivalência patrimonial, já que é uma subsidiária não consolidada.

Nos últimos anos, a Aegea já vinha crescendo num ritmo de 25% ao ano. Com o resultado de 2021, subimos para 30% ao ano nos últimos 5 anos de crescimento médio ponderado. Saneamento é um negócio que, na medida em que vai amadurecendo, as margens são multo boas. Nossa margem ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de 2021 ficou em 62%. Poucos negócios oferecem esse nível de margem. Operacionalmente, trabalhamos com custo baixo, e a parte da redução de perdas também é um indicador operacional importante para o resultado de uma operação de saneamento.

Também consideramos importante o relacionamento com os clientes. Na medida em que entramos numa região, desenvolvemos essa relação com a comunidade e, ao prestar um serviço de qualidade, sentimos ser reconhecidos. Daí batizarmos essa prática de licença social para operar. Outro componente que valorizamos é a cultura da empresa, cuidando da capacitação dos colaboradores. Veja, no fim de 2019, a Aegea contava com 5 mil colaboradores; em 2021, chegou a 8 mil, e devemos fechar este ano com 10 mil. Para garantir o treinamento de uma equipe que se multiplica, desenvolvemos diversas capacitações, um curso de graduação de gestão de saneamento que possui selo do MEC, e temos uma pós-graduação em parceria com a FGV. Consideramos isso importante desenvolver essa oferta.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.