Voltar
02 Fev 2022

Brasileiro precisa recuperar renda e expectativas sobre o país

Marcelo Neri, diretor do FGV Social

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Nesta breve conversa para o Blog da Conjuntura Econômica, Marcelo Neri, diretor do FGV Social, repassa alguns de seus estudos para alertar sobre o sensível cenário social brasileiro em 2022, que começa com pobreza alta e redução da renda do trabalho, lembrando que se trata de uma sociedade que também está menos confiante em políticas que consideram fundamentais, como de educação, saúde e ambiental.

Levantamento do FGV Social mostra que, em ano de eleições presidenciais, a pobreza tende a cair no Brasil. Levando em conta que as transferências sociais já cresceram nos últimos anos em função da pandemia, e que 2022 promete uma inflação ainda alta, baixas perspectivas de crescimento e de melhora na geração da renda do trabalho, o que se pode esperar para este ano eleitoral?

De fato, como pode ver no gráfico abaixo, em dez entre dez eleições realizadas desde 1982 a pobreza caiu em ano eleitoral. O grande canal de transmissão são rendas de programas sociais, que sobem 22,57% em ano eleitoral, mais um bônus de 3,43% para quem está em idade de voto.

Ou seja, há 40 anos o Brasil tem efeitos do ciclo político eleitoral visíveis a olho nu. Antes, o mecanismo clássico era lançar um plano de estabilização expansionista tipo Plano Cruzado, Verão ou Real antes das eleições. Depois, veio o mecanismo de transferência de renda direta. O jogo é sempre o mesmo: entregar boas notícias antes das eleições, e a conta do desajuste depois.  Agora, inovamos no oportunismo político, dando o piso retrátil. O mínimo de R$ 400 por família para o Auxílio Brasil em 2022 apenas, com a inflação alta que temos hoje, vai gerar empobrecimento já em janeiro de 2023. O cenário de desinflação da grande recessão de 2015 em diante, quando o IPCA veio de 10,67% em 2015 para 4,31% em 2019, e a taxa de desemprego da metade mais pobre da população subiu 8,5 pontos percentuais, pode ser útil como parâmetro para o que nos aguarda.

Pobreza (P0) e Eleições


Fonte: FGV Social/CPS.

Qual efeito espera do Auxílio Brasil, levando em conta que este não atenderá a toda a parcela de famílias elegíveis?

Nossa estimativa em outubro de 2021 era de que havia 27,6 milhões de pobres no país, cerca de 4,6 milhões acima do período pré-pandemia – levando em conta uma linha de pobreza de R$ 261 por pessoa/mês). Isso foi antes da transição para o Auxílio Brasil, que implica a saída de mais de 20 milhões de pessoas do auxílio emergencial, e um aumento de pobreza agora. A regra dos R$ 400, além de oportunista, não leva em conta o tamanho, nem a extensão de pobreza da família. Isso significa um passo atrás nessa política. Tentar fazer um programa meio auxílio emergencial, meio Bolsa Família, com nove tipos de benefícios diferentes me parece ambicioso e complexo demais.

Qual alteração gostaria que o próximo governo fizesse no programa?

Um caminho que tem sido pouco explorado na escolha fiscal x social é um caminho do meio, que combina as duas vertentes através de inclusão financeira envolvendo poupança, seguro, crédito produtivo e educação financeira para a base da pirâmide. Ou seja, uma política social e econômica combinada. Dar mais mercado aos pobres, sem impactos fiscais relevantes, é um fruto baixo que nunca foi colhido no Brasil. Uma exceção foi o pagamento do auxílio emergencial em contas digitais de poupança, que foi um empurrão nessa linha. Tivemos recorde de captação líquida de poupança em 2020, de R$ 166 bilhões, que pode ter feito a diferença nas subidas e caídas das transferências públicas.

Outra característica da atual conjuntura capturada pelo FGV Social indica é a de um expressivo contingente de jovens que pensa que as melhores oportunidades estão fora do Brasil. Desde quando esse sentimento vem se acentuando? Quais frentes, em sua opinião, poderiam reverter as expectativas desse público?

A proporção de jovens que, se tivesse oportunidade, mudaria permanentemente de país sobe de 20,1% em 2011-14 para 47% já em 2019. De fato, o Ministério de Relações Exteriores indica que o número de emigrantes brasileiros, em geral jovens, nunca foi tão alto quanto em 2020 (nesse ano, segundo o Itamaraty, o número de brasileiros no exterior chegou a 4,2 milhões, um aumento de 16% em uma década).

A perda de qualidade percebida em políticas que importam aos jovens brasileiros, como educação e meio ambiente, durante a pandemia, mais a crise recorrente no trabalho juvenil desde 2013, ajudam a explicar o lado conjuntural desta fuga de cérebros tupiniquins. Outro levantamento, com a população brasileira em geral, indica que a percepção do brasileiro – especialmente os mais pobres – em relação por exemplo à saúde pública caiu 5 pontos percentuais nos últimos anos em relação ao nível pré-pandemia, enquanto numa média entre 40 países do mundo a satisfação da população aumentou um ponto percentual.

Antes mesmo da pandemia, estruturalmente, cerca de 30% dos jovens brasileiros já afirmavam não ser possível progredir no Brasil trabalhando, colocando o país em 103º num ranking de 139 países. O problema é que, de agora em diante, vai faltar jovem no país do futuro.

Jovens brasileiros menos satisfeitos com políticas em áreas que valorizam
(faxa etária entrevistados: 15 a 29 anos)


Fonte: FGV Social/CPS a partir dos Microdados do Gallup World Pol.

 

Jovens desencantados
Se tivesse oportunidade, se mudaria permanentemente do país


Fonte: FGV Social/CPS a partir dos Microdados do Gallup World Poll.

Leia também: Um passado desconhecido

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.