“O risco é responsabilizar somente o ponto mais fraco dessa estrutura”
Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
Quando iniciou suas pesquisas de campo para o mestrado em habitat pela FAU/USP, o objetivo do geógrafo Kauê Lopes dos Santos era analisar os contrastes presentes em bairros periféricos da capital paulista. Casas autoconstruídas de forma precária – em entornos deficitários em infraestruturas básicas, da rede de esgoto à oferta de educação, saúde e lazer –, onde se podem encontrar produtos como TVs de tecnologia de ponta.
Foi analisando os motores que alimentam tais disparidades que Santos rapidamente chegou ao crédito e às implicações do alto comprometimento de renda da população desses bairros, possibilitado pelo modo de pagamento parcelado que dá nome ao seu livro, recém-lançado pela editora Fósforo. “O crédito acabou sendo a chave da interpretação, porque, na verdade, é o que viabiliza o consumo desses equipamentos mais modernos”, diz Santos.
No livro, Santos defende que, em vez de contribuir para a superação da pobreza, trata-se de um modelo de consumo que cria a ilusão de inserção em um sistema que, estruturalmente, mantém essas populações integradas de forma desigual. No processo de pesquisa que originou o livro – estendido após o mestrado –, Santos afirmou evitar julgamentos sobre o comportamento de compra dos moradores:
“Às vezes o mundo acadêmico encara o tema de forma muito presunçosa, fazendo juízo de valor sobre o tipo de consumo. Se as pessoas afirmam que o consumo melhorou suas vidas, não cabe a mim falar se determinada compra estava certa ou errada, mas entender as condições em que ela acontece.
Tanto sujeitos da periferia quanto sujeitos do centro estão expostos ao mesmo apelo ao consumo, a partir da publicidade, que cria a necessidade de um produto, o crédito, que permite a aquisição de um bem via parcelamento; à obsolescência programada, que age magistralmente em promover um ciclo de descarte muito acelerado.
E se a exposição é igual para os consumidores, os produtos de crédito chegam de forma diferenciada, com taxas diferenciadas, mecanismos diferenciados. Isso foi virando um aspecto importante da minha avaliação, pois viabiliza um consumo qualificado, mas mais caro.”
Um dos entrevistados em Parcelados é Breno, um homem de aproximadamente 50 anos, que mora com mulher e três filhos a poucas quadras da marginal Tietê. A história de Breno ilustra a ansiedade gerada pelo endividamento com parcelas a perder de vista. Somente depois de assumir uma jornada extra de trabalho como motorista de aplicativo é que ele conseguiu sair do vermelho. A mesma sina de Solange, outra personagem do livro – dois filhos, moradora da Brasilândia –, que além de auxiliar de limpeza, faz venda por catálogo para complementar a renda. “A gente não trabalha mais só pra viver, a gente trabalha para não afundar”, desabafa ao autor. Santos destaca que o endividamento crônico, que leva parte da população a jornadas de trabalho estendidas, reorienta drasticamente a vida financeira das famílias, “cujo porvir está hipotecado às prestações do presente”.
“Em algumas entrevistas, ficou muito nítido para mim a organização do orçamento familiar, feita em caderninhos e mesmo planilhas de Excel. Mas tudo estava organizado no presente, e em formas de usar o tempo livre para ampliar a renda.
O que vemos hoje é algo diferente ao visto nos anos 1970 e 1980, quando o endividamento era uma condição episódica, e o padrão de consumo era diferente, pois a compra de mercadorias custosas era menos frequente. Uma vez que se junta o dinheiro, compra-se o produto e encerrada a história. Não há tantas projeções no futuro, e hierarquizam-se as demandas. No caso de uma emergência, desloca-se o uso desse dinheiro, e o produto fica para um segundo plano. Quando se compra parcelado, não há flexibilidade: o caminho está direcionado. Aliena-se o futuro, no sentido de que essas parcelas são a perder de vista.”
A pesquisa de Santos concentrou-se em três bairros: além de Brasilândia, na Zona Norte, Jardim Helena (Zona Leste), e Jardim Helena (Zona Sul). Todos com população majoritariamente negra, como Breno e Solange. Inspirado no conceito de ciclo de desvantagens cumulativas formulado por Carlos Hasenbalg em Discriminação e desigualdades raciais no Brasil, de 1979, Santos alerta que, no atual contexto, o crédito se anota como mais um elo nessa construção.
“A questão racial é um elemento nada desprezível nessa análise. Trata-se de uma população que já concentra os piores postos de trabalho e rendimentos. Além de serviços públicos básicos – saneamento, eletricidade, segurança – que é um ponto fundamental – piores. O crédito atua como vetor de uma modernidade seletiva, pois incorpora essa população sob condições desiguais e não rompe o ciclo de desvantagens.
Acho que, no geral, esforços de educação financeira são importantes, mas não únicos. O risco é responsabilizar somente o ponto mais fraco dessa estrutura.”
Leia mais sobre endividamento e inadimplência na Conjuntura de maio.
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