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09 Set 2025

“A qualidade da pauta comercial com os EUA não permite que apenas viremos a página”, afirma Constanza Negri (CNI)

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Em entrevista para matéria da Conjuntura Econômica de setembro, Constanza Negri, gerente de Comércio e Integração Internacional da CNI, contou-nos sobre a missão de empresários brasileiros a Washington, com o objetivo de sensibilizar representantes do poder Executivo, do Congresso e dos setores compradores de bens fabricados no Brasil sobre o impacto do tarifaço. Os representantes brasileiros foram divididos em quatro segmentos: bens de capital, insumos críticos e integração de cadeias industriais; agroalimentos e bioenergia; manufatura e bens de consumo; e mineração, químicos e tecnologia. Na conversa, cujos principais trechos antecipamos aqui, Negri afirma que o atual modus operandi do governo dos EUA demanda pensar novas formas de cooperação entre os parceiros comerciais. Confira:

A CNI reuniu empresários em uma missão a Washington no início de setembro, para tratar do tarifaço com representantes empresariais e de governo. Qual o balanço desse encontro?

É a segunda missão que realizamos este ano. Houve uma primeira em maio, quando buscamos entender o que aconteceria depois da taxação de 10%, e sensibilizar sobre dados de nossa relação comercial que para muitos eram desconhecidos. Por exemplo, de que a média da tarifa real aplicada pelo Brasil às exportações dos Estados Unidos está em torno de 2,7% (devido ao uso de regimes de exceção), e que – guardadas as proporções – os EUA são o primeiro destino de investimentos produtivos brasileiros fora do país. São investimentos em mais de 20 estados dos EUA, todos republicanos. Nossa preocupação naquele momento – que continua agora – é que decisões fossem tomadas sem ter como base argumentos técnicos.

De maio para cá, o quadro se agravou com o tarifaço. Nesta missão, tivemos três objetivos: fomentar estratégias conjuntas do setor privado brasileiro com o setor privado norte-americano; reforçar com o Executivo e o Congresso dos EUA que o setor privado está aberto para dialogar e contribuir com evidências; e participar da audiência pública referente ao processo aberto pelo USTR com base na Seção 301 (da Lei de Comércio dos EUA, que permite investigar políticas ou práticas avaliadas como injustas, discriminatórias ou restritivas ao comércio dos EUA). 

Não cabe a nós o mandato de negociar, então colocamos nossos esforços em busca de facilitar o diálogo do ponto de vista do setor privado com nossas contrapartes, esperando que isso possa, de alguma maneira, contribuir na esfera de diálogo governamental. Os encontros envolveram cerca de 130 participantes, representantes de diferentes setores da indústria e seus parceiros norte-americanos que também estão sendo afetados. Quando analisamos os dados da relação econômica Brasil-Estados Unidos, vemos que mais de 60% da nossa pauta é composta por bens intermediários em que o tarifaço coloca grandes desafios, além dos impactos negativos que já conhecemos aqui no Brasil.  

Está claro que há uma complexidade que impede vislumbrar uma solução de curtíssimo prazo, mas ao mesmo tempo voltamos muito confiantes, porque quando escutamos esses setores – foram em torno de 50 representantes de associações dos EUA – reforçamos a ideia de que não há a menor lógica nessa sobretaxação, e seu impacto já está começando a se fazer presente nos Estados Unidos. Na sexta-feira (5/9), quando voltamos para o Brasil, o presidente Trump publicou uma nova ordem executiva onde lista produtos e bens a serem isentos de tarifas, no caso de países com o qual os EUA têm acordo. Não é o nosso caso, mas consideramos um sinal de que talvez os efeitos dessa medida, tão ampla e sem racionalidade, já esteja levando a uma revisão.

A partir dessa percepção, qual agenda consideram que o governo brasileiro deve priorizar visando à ampliação das isenções ao tarifaço?

Desde o início dessas medidas, nosso diálogo com o governo é frequente. Continuaremos reforçando a importância de se buscar canais e de se ter certo grau de pragmatismo combinado com criatividade, se posso dizer assim, posto que ficou muito claro que o modus operandi dos Estados Unidos não é o de uma negociação tradicional. A própria política comercial que eles estão colocando prática sai muito do que a gente entende como tradicional. O que ficou claro para nós é que o setor privado está buscando ser um aliado, não só aqui, mas também lá, interessado em estabelecer uma mesa de negociação ampla, que não se limite aos produtos tradicionalmente mais sensíveis, como o aço. 

É necessário pensar novas formas de cooperação, que incluem questões como a dos data centers, dos minerais críticos, que levem Brasil e EUA à mesa de negociação. Estamos cientes que há um desafio político nisso mas, como setor privado, e olhando a economia, é o que precisamos fazer. Acho que a missão também deixou claro que, dentro desse novo normal, digamos assim, da política comercial norte-americana, é preciso fazer uma peregrinação a diferentes atores. Tradicionalmente, o foco estaria basicamente no USTR, mas nossas reuniões nos mostraram que todos devem ser sensibilizados de que Brasil e os Estados Unidos têm mais a ganhar juntos.

Uma coisa que preocupa muito a indústria no Brasil é a qualidade da nossa pauta comercial com os Estados Unidos. Cada bilhão de dólares exportados para os EUA envolve em torno de 24 mil empregos. No caso de nossas exportações para a Ásia, esse número cai pela metade. Então, há uma dupla preocupação, de que essa situação atual dos Estados Unidos não leve a um impacto econômico de curto prazo, mas a uma reorientação do modelo de integração que o Brasil tem com o mundo, que já é tímido e de menor qualidade nesse sentido.

Quanto à agenda de diversificação de mercados e ampliação de acordos comerciais, considera que estamos reagindo a contento?

Para a indústria, essa questão de troca de parceiros comerciais não é tão banal, sobretudo se a gente pensa em setores de maior complexidade. É preciso realismo quanto a isso. Precisamos que a pauta do Brasil seja diversificada, com parceiros que gerem ganhos, mas isso não significa que conseguiremos as mesmas oportunidades ou a mesma qualidade da pauta que a gente tem com Estados Unidos para outros parceiros e para alguns setores.

Nossa avaliação é de que o Brasil tem uma integração tímida do ponto de vista dos seus acordos, mas isso não significa que qualquer acordo é um bom acordo. Precisamos de negociações para abertura de mercados com parceiros que sejam relevantes, que possam trazer ganhos qualitativos para nossa pauta, e esperamos que o atual contexto de alguma maneira gere um empurrão positivo nesse sentido.
Quando a gente olha as prioridades da indústria, existem acordos e parceiros com os quais entendemos que as chances de gerar ganhos agregados sistêmicos para os países são maiores. Nessa lista entra União Europeia-Mercosul, e com Canadá e México. Essa diversificação de pauta precisa ser feita de maneira estratégica, para que gere ganhos de fato.

No campo doméstico, que medidas avaliam como necessárias em prol de uma abertura competitiva?

No Brasil, há uma série de áreas importantes, e a CNI trabalha com o escopo amplo, que vai desde a implementação da reforma tributária até a diminuição do custo Brasil. Vou me limitar à agenda que lidero, que é a comercial. Neste campo, um dos itens mais críticos é a facilitação de comércio, que o Brasil tem relativamente avançado. Em segundo lugar eu colocaria a área de financiamento em exportação, na qual o Brasil perdeu muito espaço. Financiamento de exportação para a indústria é um nicho de mercado que envolve financiamento de longo prazo com as cadeias produtivas, em que o financiamento privado pouco chega. É preciso reconhecer que, do ponto de vista de volume, domesticamente o Brasil melhorou muito nesses últimos anos, sobretudo com uma maior participação do BNDES. Mas ainda estamos longe do apoio observado em grandes economias.

Outra área, do ponto de vista doméstico, na qual o Brasil tem uma ampla tradição é a de defesa comercial. Diante da atual conjuntura, precisamos cuidar tanto da cozinha interna, como garantir proteção diante da concorrência desleal. Claro que, a depender do contexto, algumas agendas ganham preponderância. Hoje, observamos entre nossas contrapartes nos EUA que a via é privilegiar o diálogo e a cooperação. Percebemos um grande desconhecimento sobre os avanços do país em temas como etanol, desmatamento, em que os EUA poderiam ganhar mais em ser parceiros para influenciar uma agenda regulatória global do que brigar por fatias menores em seus próprios mercados.

Ainda quanto à política comercial de Trump e o cenário de incerteza global, como avalia os riscos para o Brasil em relação à atração de investimento produtivo, em especial os relacionados à transição energética – posto que na negociação do bloco com os EUA houve a promessa de investimentos nos EUA?

Acho que ainda é cedo para traçar alguma conclusão sobre isso, ainda que seja um tema importante. Por um lado, o potencial que o Brasil tem para o chamado powershoring continua sendo importante, ainda que continuemos com desafios que são estruturais que não têm qualquer relação com a política dos EUA. O potencial de atração de investimento relacionado à transição energética continua, e apostamos nisso. Por sua vez, investimentos brasileiros nos Estados Unidos continuarão sendo, ou deveriam ser, um aspecto da nossa pauta, porque não por acaso se trata do primeiro destino desses investimentos. Se a atual política irá representar uma redução do ponto de vista de fomento do investimento brasileiro, tampouco acho possível traçar uma conclusão agora.

Qual a agenda de curto prazo da CNI?

Temos muito trabalho pela frente. A qualidade da pauta comercial com os EUA não permite que apenas viremos a página. A própria agenda de crescimento com qualidade defendida pela indústria no Brasil nos leva a colocar mais esforços em busca de reverter esse quadro e minimizar seus impactos. Continuaremos com o monitoramento em relação aos Estados Unidos, pois temos a necessidade de contribuir para que haja algum tipo de negociação para mitigar os efeitos dessas medidas. Ao mesmo tempo, existe uma grande incerteza, falta de informação para as empresas exportadoras que operam no dia a dia no Brasil, para entender em qual alíquota as suas exportações vão ficar. Há uma complexidade nessa matriz de medidas que ela não é intuitiva, tampouco banal. Veja o caso da medida que inclui a sobretaxação de aço e alumínio que estejam incorporados em produtos. Como se calcula isso? É um quebra-cabeça para aquelas empresas que ainda podem se dar ao luxo de continuar exportando com essas tarifas. Estamos inclusive desenvolvendo um painel para que as empresas possam consultar a classificação de seus produtos.

Precisamos trabalhar tanto na frente de articulação junto do governo nos Estados Unidos, como de tentar apoiar as empresas com informações qualificadas. No comércio de forma abrangente, nosso foco é garantir o avanço na implementação dos acordos que já foram concluídos e acelerar aqueles nos quais a indústria tem um consenso, como o Canadá, México e com outros parceiros aqui da região.

 


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