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13 Fev 2025

Inflação de alimentos: tarifa de importação, controle de gastos e seguro são os melhores instrumentos para mitigá-la, afirma Guilherme Bastos

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Guilherme Bastos, coordenador do Centro de Estudos do Agronegócio do FGV Agro, conversou para o Blog e a revista Conjuntura Econômica sobre inflação de alimentos, avaliando quais medidas são mais efetivas e geram menos desequilíbrio para contribuir no controle de preço desses produtos. Confira:

Após um 2024 com uma inflação de alimentos consideravelmente acima do IPCA geral, como analisa a perspectiva de mais um ano com pressão de preços?

Temos que tomar muito cuidado com essa questão dessa pressão inflacionária e o que está por trás disso. Sabemos, olhando o passado, que todas tentativas de intervenção sempre foram catastróficas. Elas atenuam o quadro num primeiro momento, mas a consequência a gente vai colher lá na frente.

É preciso entender que temos uma pressão cambial forte, por questões do próprio descontrole fiscal do governo. A gente sabe que boa parte dos insumos de produção agrícola são importados, onde o câmbio acaba impactando. Fazendo uma ressalva que o setor lá atrás passou um ano com estoques muito altos, ele tem que colocar esses estoques para fora, então talvez o repasse de preços não seja tão imediato.

Também tem uma parte dessa inflação que é a de preço tradable, que está sendo afetada diretamente pelo mercado Internacional, seja por alta nas cotações, seja pelo fato de estarmos com o volume de exportação com ritmo bem forte como no caso das carnes, por exemplo. Portanto na hora em que se traz isso em termos de paridade de exportação, ele fica em um nível mais alto internamente, e isso acaba tendo um reflexo nos preços.

Logo, tem aqueles produtos que chamamos de não tradables, como os hortifrutícolas, que tradicionalmente flutuam. É o caso da cebola, do tomate, por exemplo. O grande ponto desses produtos é que eles têm um período produtivo mais curto, então há possibilidade de se ter uma recuperação mais rápida. Mas, no curto prazo, acaba machucando os índices de inflação.

Este ano aponta-se para uma safra de grãos recorde – no ano passado houve problemas, mas ainda assim foi a segunda maior da história – mas grãos em geral precisam passar por um processo de transformação. O arroz precisa ser beneficiado, o trigo precisa virar pão, a soja precisa virar ração que vai virar carne, e assim por diante. Então, não é simplesmente porque a safra é boa que a gente vai se apropriar de preços mais baixos. Tem toda uma dinâmica de mercado que mantém esses preços em equilíbrio.

Como avalia o debate em torno de intervir no mercado para controlar a alta de preços?

Qualquer tentativa de entrar nesse equilíbrio, como importando e estocando produto, diria que é errada. Considero que o que foi mencionado recentemente sobre trabalhar as taxas de importação é a melhor forma de realmente dar uma atenuada na evolução dos preços do mercado interno.

Isso aconteceu, por exemplo, no segundo semestre de 2020, quando o arroz estava indo lá nas alturas. Na época, eu estava como presidente da Conab, e a saca do arroz estava atingindo 3 dígitos. A gente sabia, acompanhando a evolução da oferta e demanda mensal do arroz, que havia estoque do produto. Não nas mãos do governo, mas nas mãos privadas - que faz todo o sentido em termos de fluxo -, e o que estava faltando era esse acesso ao produto, pelos atacadistas em São Paulo. Na época, a paridade de importação da Tailândia, por exemplo, estava maior do que o preço no mercado interno.  Assim, reduzindo a tarifa de importação - na verdade, zerando a tarifa externa comum (TEC) do Mercosul, dava-se uma sinalização para que os atacadistas, os cerealistas em São Paulo, pudessem adquirir um produto a um preço mais baixo do que estava praticando no mercado interno.

Qual foi a sinalização? No primeiro momento, houve uma estabilização na taxa de crescimento do valor do arroz no atacado, e com isso os produtores do Rio Grande do Sul, onde havia estoque, começaram inclusive a liberar um pouco mais de arroz, e a coisa normalizou. Diria que essa talvez seja a maior interferência possível que o governo deveria fazer. Qualquer coisa fora disso gera distorções para esse mercado.

Não se pode deixar dominar pela aflição com relação ao controle da inflação. Sabemos que, em se tratando dos alimentos, é uma questão cíclica. No caso da segurança alimentar, aí são outros instrumentos, como subvencionar as camadas da população menos favorecidas. Mas isso já tem e, na verdade está retroalimentando muito esse aquecimento na demanda por alimentos. Sabemos que os gastos com as políticas sociais eles têm aumentado bastante, com isso se acaba aquecendo essa base de demanda, de consumo desses produtos. Foi a mesma coisa que aconteceu com o arroz lá em 2020. Sempre surge a alegação de que o problema é a queda de área plantada de arroz, mas que bom que isso acontece, porque ele está mantendo um equilíbrio de oferta e demanda. Em condições normais de crescimento de renda, o arroz é um produto que reduz o consumo ao longo do tempo, o que justifica um ajuste em termos de área e de produção. Caso contrário, fica-se com muito produto, e aí realmente os preços passam a impactar o incentivo para o produtor continuar produzindo arroz.

Qual a direção considera que o governo deve tomar e comunicar em relação à inflação de alimentos?

Se não se tratar de um processo de desabastecimento, mas de um overshooting aí do preço do produto, a desoneração das importações, como disse, é uma medida que funciona bem para preservar um pouco mais do ambiente inflacionário. Para os produtos do mercado interno, esse daí tem que aguardar a questão do ajuste mesmo, do preço versus retomada da produção, que vem junto da agricultura familiar. Quanto a isso, aliás, não podemos nos equivocar pensando que a agricultura familiar no Brasil só trabalha com produtos para o consumo interno. Há muitos agricultores familiares na produção de café, por exemplo, se beneficiando dessa alta de preços.

Outra preocupação que o governo deve ter é com a contenção de gastos para estabilizar o processo inflacionário em geral, e que também afeta o câmbio. A inflação de serviços também é um problema, pois também acaba impactando o processo de produção, como no caso do transporte.

Falta também à Conab uma análise mais apurada sobre a oferta/demanda de produtos, que colaboraria inclusive para a avaliação sobre a efetividade das políticas sociais em atenuar esse processo de incremento de custo das cestas das famílias. Veja o exemplo do departamento de agricultura americano (USDA), que faz um balanço de oferta e demanda dos principais produtos agrícolas no mundo todo. Claro que não temos a mesma estrutura do USDA, mas temos como fazer esse acompanhamento de forma mais refinada, que permite uma sensibilidade maior com relação à escassez ou excesso de oferta de cada produto em cada momento do tempo. Há uma ciência econômica nesse processo, que inexiste no governo. Por exemplo, sabemos como está o consumo de arroz, mandioca, hortifrutigranjeiros por faixa de renda no país? É com essa informação que podemos avaliar como as políticas sociais estão atendendo as diferentes camadas de renda. Sem isso, caímos no jargão de recorrer a estoques.

Há, ainda, a necessidade de se ampliar a cobertura de seguro no agro brasileiro. Nos Estados Unidos, ela cobre 95% da área cultivada. Aqui, estamos na casa dos 10%, 14%, e em decréscimo. Mas precisa ser uma cobertura de seguro que incentive o produtor a mitigar seu risco, ser um indutor tecnológico. Algo, por exemplo, que não acontece com o Proagro, que é um programa de garantia de renda acionado muitas vezes pelo mesmo estabelecimento, anos a fio. Que mensagem se passa ao produtor dessa forma? Para que ele mantenha seu modo de produzir tal como está. É preciso fomentar o que chamamos de programa de subvenção ao prêmio do seguro, que é onde o governo entra com um pedaço. Dessa forma, abate-se um pouco desse prêmio de seguro que é alto no mundo inteiro agrícola é alto, pois são produtos voltados a eventos catastróficos, os quais, quando acontecem, atingem várias propriedades ao mesmo tempo. Por isso, precisam ter um tratamento diferenciado.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.