“Para as fintechs o desafio maior ainda é a inadimplência”

Sandro Reiss, presidente da Associação Brasileira de Crédito Digital

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Recentemente, a Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD), em conjunto com a PwC, lançou pesquisa sobre a evolução das fintechs de crédito, mostrando que desde 2019 houve uma ampliação da oferta de produtos para pessoas físicas, e uma especialização entre as que operam crédito para empresas. Como a pandemia afetou esse processo?

Há trajetórias bem particulares. Muitas passaram por um estágio mais maduro, outras não se desenvolveram na mesma velocidade. Dependeu, entre outros fatores, de seu tempo de mercado. Vale lembrar que as primeiras fintechs de crédito surgiram no Brasil em 2012, 2013, com um marco regulatório para operação que era diferente. Em 2018 teve um passo importante, que foi a regulação da Sociedade de Crédito direto – SCD (que realiza operações de empréstimo e financiamento com uso de capital próprio) e a Sociedade de Empréstimo entre Pessoas – SEP (que realiza operações entre pessoas em plataforma eletrônica). Isso permitiu que permitiu que o mercado como um todo passasse a enxergar as fintechs de crédito como uma força emergente, regulada, ainda que comparticipação pequena.

Quando entramos no ciclo da pandemia, no início de 2020, a fotografia era de um mercado em ebulição total. Muitas novas empresas surgiam para atender dores especificais, nichos de mercado mal atendidos. Ao mesmo tempo, empresas que já estavam há um tempo no mercado ganhavam escala. Na pandemia, houve um movimento muito curioso entre os mercados pessoa física (PF) e pessoa jurídica (PJ). No caso da PF, o suporte dado pelo governo às camadas de renda mais baixa com o auxílio emergencial manteve mercado adimplente um pouco mais do que o esperado e, depois do susto e a incerteza inicial, as fintechs voltaram a operar rapidamente no crédito.

No caso das fintechs de crédito que operam com PJs, houve algumas características distintas. Vale lembrar que há três principais modelos de financiamento entre elas. O primeiro são as fintechs marketplace, um espaço onde agentes convencionais do mercado de crédito – como bancos, financeiras – encontram o cliente através de uma experiência digital, e os recursos desses agentes acabam entrando no sistema via fintech. O segundo modelo são as fintechs que se financiam através do mercado de capitais, em geral Fidcs ou securitizações, e usam os recebíveis do crédito para alimentar esses veículos no mercado de capitais, e investidores de renda fixa que provêm recursos que são concedidos em crédito. E ainda tem um terceiro modelo, em que a fintechs são elas mesmas instituições financeiras, SCDs ou bancos, e estão usando seus próprios recursos de balanço.

Com a liquidez injetada no início da pandemia no sistema bancário, tornando a oferta mais abundante nos meios convencionais, as fintechs marketplace foram as mais beneficiadas, ainda que os dois outros modelos tenham prevalecido quando se observa o ciclo todo. De qualquer maneira, foi um momento onde as fintechs puderam conhecer clientes novos, que não conheceriam em outros cenários, tendo aqueles que permaneceram para a vida.

Principais fontes 
(% do total)


Fonte: PWC/ABCD – Pesquisa Fintechs de Crédito Digital 2022. *Dado não disponível para 2019.

O cenário de inflação e juros altos e persistentes trouxe uma conjuntura nova, que tem obrigado muitas startups a reestruturar seu negócio, o que inclui várias demissões. Como esse cenário tem afetado as fintechs de crédito?

Não há uma resposta única para todas, já que tudo depende de seu modelo de negócio, nível de capitalização e acesso a capital. O cenário de inflação e juro alto sustentado é desafiador para o mercado de crédito como um todo. Inflação interfere no poder de compra, o que no caso das pessoas físicas inclui tanto a capacidade de pagamento de obrigações já contratadas como a habilidade de contratar novas operações. No caso de pessoas jurídicas, representa risco no faturamento, o que também impacta. Pois a habilidade de repassar essa inflação para preços é limitada em cenário de demanda fraca por falta de crescimento. Isso pressiona o riso de inadimplência, o que limita o mercado como um todo. E tem o mesmo efeito seja para bancos ou fintechs.

Há ainda o fator custo de capital.  Ainda que também seja um fator que também afete o sistema financeiro com um todo, entendo que para os negócios com escala menor o desafio nesse caso é maior. Historicamente, os bancos têm acesso a capital mais barato. Esse spread, esse custo de capital adicional que as fintechs pagam, coloca certa pressão sobre a capacidade de crescer das que não têm um funding mais barato. Isso dá vantagem para quem tem base de depósitos e, ainda que em menor grau, a quem tem histórico mais longo de performance. São fintechs que conseguem se financiar mais barato no mercado de operações estruturadas.

A pesquisa da ABCD/ PwC mostra que entre os principais gargalos que as fintechs buscam solucionar estão o aumento do índice de aprovação de crédito para seu público-alvo, e que este aconteça de forma mais rápida e menos burocrática. Ainda que a redução de custo desse crédito não seja uma bandeira imediata, consideram que o cenário de aumento de juros seja um fator que prejudique o negócio das fintechs na atual conjuntura?

Entendo que o desafio maior ainda é inadimplência. Em um ambiente onde há um crescente de informações disponíveis dos clientes, o trabalho das fintechs para as ser cada vez mais analítico, de usar dados para construir modelos de decisão, precificação de risco cada vez melhores. Entendo que tem uma agenda de garantias e de interoperabilidade bancária que ajuda a controlar o risco de inadimplência, mas que o custo de capital é uma equação importante de ser solucionada. Cada fintech pode encontrar um caminho diferente para solucionar este ponto, e me parece ser um problema mais evidente no curto prazo que no longo prazo. Acho que, no longo, prazo inadimplência tem valor maior para sociedade se conseguirmos resolvê-la.

Já existem muitas fintechs ou empresas do mundo digital que conseguiram criar modelos de negócios altamente sustentáveis e competitivos. Outras ainda estão no momento de sua história em que buscam aprovar uma proposta de valor diferente. E, para isso, é preciso muito capital. Independentemente do nível de sucesso que as empresas individualmente terão, entretanto, o modelo continuará sendo bem-sucedido. E quem está ganhando é o consumidor final, com mais opções, e cada vez mais competitivas. Sem sombra de dúvidas, as fintechs vieram para ficar.

Fintechs – taxas (%) cobradas a pessoa jurídica


Fonte: PWC/ABCD – Pesquisa Fintechs de Crédito Digital 2022.

 

Apostas tecnológicas


Fonte: PWC/ABCD – Pesquisa Fintechs de Crédito Digital 2022.

Quais os temas prioritários da associação hoje? Há algum ponto pendente na agenda BC# que identificam como prioritário?

Nossa agenda não é de incentivos, mas de busca por eficiência e competitividade. Ainda hoje existem no Brasil muitos custos desnecessários na cadeia do crédito. Entre as nossas bandeiras estão, entre outros pontos, maior eficiência das operações feitas de financiamento via mercado de capitais e a remoção de tarifas e tributos que são regressivos, e que fazem com que custo do crédito aumente para o consumidor final, seja ele PF ou PJ.

No caso da ação do Banco Central, ele tem feito um trabalho espetacular para promover mudanças que são de fato estruturais para o mercado. E outros entes reguladores, como a CVM com o novo marco de securitização, que vai ajudar o mercado de capitais a operar de forma mais eficiente para a fornecer recursos ao crédito. Voltando ao BC, o open finance e o Pix são mudanças de uma profundidade enorme. E quando se olha um pouco mais atrás, tudo que foi feito na agenda de pagamentos, tudo que foi feito no ambiente de cadastro positivo, são iniciativas que efetivamente geram benefícios de longo prazo, com aumento de competitividade e redução de custos. Nossa expectativa, nesse caso, é de que o BC continue na mesma direção, garantindo a execução plena dos programas que estão em curso. Se conseguirmos cobrir a agenda do open finance, se cumprirmos a agenda do PIX, com todas as inovações que estão vindo junto, será ótimo. Também tem um trabalho a se fazer de identidade digital, que está um pouco mais incipiente, mas também é muito importante para endereçar o problema de fraudes e roubo de identidade. Tem muitos trabalhos em curso extremamente positivo e estruturantes.

 

Leia também:

- Mesmo com macroeconomia desfavorável, evolução do registro de recebíveis pode abrir janela par ao crédito.

- Governo estuda compartilhar risco de crédito a pequenas empresas dentro da cadeia produtiva a qual pertencem.

- Revista Conjuntura Econômica: apesar do cenário negativo no curto prazo, o horizonte pode ser mais positivo levando em conta o conjunto de mudanças microeconômicas em prol da ampliação do acesso a crédito.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

Subir