“O que pedimos é que haja razoabilidade, para que se possa aproveitar o enorme potencial que o Brasil tem”, afirma Roberto Ardenghy, presidente do IBP
Roberto Ardenghy, presidente do IBP
Por Claudio Conceição e Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
A entrevista de dezembro da Conjuntura Econômica é com Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás. Entre os temas de destaque estão o compromisso das companhias em colaborar para a transição energética, e as demandas do setor apresentadas para a equipe de transição de governo. A seguir, alguns trechos dessa conversa:
Conjuntura Econômica — Desde o início de seu plano de desinvestimentos, a Petrobras defendeu a estratégia de focar em negócios que garantam maior retorno – no caso, os campos em águas profundas e ultraprofundas do pré-sal. Como avalia o atual posicionamento da empresa em relação à transição energética global?
A política do IBP é de não discutir decisões internas de seus associados. De forma genérica, posso dizer que cada empresa tem seguido uma lógica própria, que tem a ver com seu modelo de negócio. Grandes companhias como Petrobras, Exxon e Petronas não são parecidas. Algumas trabalham em ambiente offshore, outras em onshore; umas trabalham mais com gás, outras mais com petróleo, e por aí vai. Tudo, no fundo, é uma questão econômica. É claro que a transição energética advém da preocupação com a sustentabilidade, mas é acima de tudo um processo de natureza econômica, tal como os mais importantes processos de organização de uma sociedade.
Há empresas que estão mais focadas em se reinventar. Veja o exemplo da petrolífera dinamarquesa Ørsted, que decidiu fazer uma transição de sua atividade rumo ao carbono zero, e hoje é uma empresa predominantemente de energia renovável. Outras companhias estão tentando equilibrar as duas bolas na mão, mantendo a atividade tradicional, ao mesmo tempo em que fazem um grande investimento em renovável. E outras – que talvez seja o caso de empresas como a Exxon e a Petrobras – se focam especialmente em descarbonizar sua atividade, oferecendo ao mundo esse petróleo menos poluente.
(No anúncio do Plano Estratégico 2023-2027 da Petrobras, dia 1 de dezembro, depois da realização desta entrevista, a companhia indicou em suas diretrizes estudos na área de eólica offshore, hidrogênio verde e captura de carbono, além de continuidade em biorrefino. Projetos com foco na transição energética deverão chegar a US$ 4,4 bilhões no período, ou 6% do Capex total)
Aqui no IBP, costumamos dizer que o mundo descarbonizado não é um mundo sem hidrocarbonetos. Todas as simulações, das mais otimistas às mais pessimistas, mostram que ainda haverá mercado para as fontes não renováveis. Hoje em dia, 80% da energia do mundo vêm de fósseis; se essa participação for reduzida para 60%, já será um grande avanço – e ainda serão 60%. Na China, 50% da energia ainda vêm do carvão; se o país migrar do carvão para o petróleo, já significará um importante upgrade na matriz. E por que o país não busca acelerar esse processo? Porque é uma questão de custo.
Veja, as empresas de petróleo não negam que os combustíveis fósseis são um dos elementos mais importantes do aquecimento global, pela questão da queima do carbono, e que a descarbonização hoje é uma exigência mundial para a sobrevivência da humanidade. Tanto que se criou uma instituição, a Oil and Gas Carbon Iniciative (OGCI), que é um fundo internacional com alguns bilhões de dólares para ajudar nesse processo. Mas é algo que leva tempo e que, como disse, tem a racionalidade econômica acima de tudo. Porque, se não seguirmos a racionalidade econômica, vamos gerar algo tão grave quanto o risco ambiental, que é a pobreza energética. Para se ter uma ideia, somente na África hoje existem 500 milhões de pessoas sem qualquer acesso a energia. Se não pensarmos no fator econômico, ampliaremos essa parcela da população mundial – especialmente em países da África, Ásia e América Latina – sem energia, devido ao desequilíbrio de custos. Esse foi um tema de muita discussão na COP27, o que colaborou para uma revisão do papel da indústria de óleo e gás nesse processo de transição.
No campo da pesquisa e desenvolvimento, há avanços na contribuição do setor de óleo e gás para as demais fontes renováveis?
Poucos setores da economia são tão tecnologicamente condicionados como o de óleo e gás. Foi o que permitiu ao Brasil sair da condição de importador de 90% do que consumia na década de 1970, na primeira crise do petróleo, a exportar mais de 700 milhões de barris em 2022. A descoberta do pré-sal não aconteceu por acidente, como não foi acidente a descoberta da Bacia de Campos. Isso aconteceu porque houve tecnologia, aprimoramento tecnológico, para descobrir e produzir a custo competitivo. Quando se fala em um custo de extração no pré-sal a menos de US$ 4 o barril, isso é tecnologia na veia. Além disso, hoje o Brasil tem, senão o maior, um dos maiores programas de captura e reinjeção de carbono no mundo. Somente no pré-sal, já foram reinjetadas 27 milhões de toneladas de CO2. As emissões na produção de petróleo do pré-sal são 1/3 da média mundial; conseguimos produzir um petróleo com 10 kg de CO2 por barril, enquanto no mundo a média é de 30 kg. Não vai demorar muito, o comprador do petróleo não tomará sua decisão apenas com base no preço, mas também nas emissões. Se não houver uma boa resposta, ele poderá buscar até uma alternativa um pouco mais cara, mas que seja mais descarbonizada.
Então, esse é o primeiro elemento: o setor olhar para o seu umbigo e descarbonizar, porque o petróleo ainda será muito importante, mas descarbonizado. O segundo é que tem muitas tecnologias do setor de petróleo e gás que são perfeitamente aplicáveis na produção de energias renováveis. Um exemplo é a geotermia. Algumas vezes, quando se perfura um poço em busca de petróleo, descobre-se água quente, que é naturalmente uma fonte energética, que pode ser explorada em um sistema fechado de troca de calor, que gera vapor. E quem tem essa tecnologia de perfuração é o setor de petróleo. Outro potencial é o da produção eólica offshore. Se você tem um ambiente offshore de produção de petróleo, qual a diferença de somar uma unidade de produção eólica? E um terceiro exemplo, não menos importante, é o do hidrogênio. Agora virou coqueluche, mas o fato é que as empresas de petróleo há 150 anos produzem hidrogênio, porque é um insumo fundamental para fazer o craqueamento de petróleo nas refinarias. É um hidrogênio marrom, pois a origem é fóssil. Mas é só mudar a fonte original.
O IBP já teve contato com a equipe de transição?
Sim, tivemos algumas interações. Inclusive entregamos a eles um documento com alguns dados do setor. Por exemplo, cálculos compilados pelo IBP apontam que o setor investirá
R$ 183 bilhões em infraestrutura nos próximos 10 anos, que é um valor importantíssimo para a economia brasileira – hoje já representamos 15% do PIB industrial do país. E vamos pagar US$ 650 bilhões de impostos, participações especiais e royalties.
Nesse período, a estimativa é de gerar 450 mil empregos, de funcionários para cuidar da limpeza de flotel (hotel flutuante) ao engenheiro superespecializado, com pós-graduação no exterior. Essa é outra característica importante: o setor puxa a qualificação do mercado de trabalho para cima. O salário pago por nossa indústria é acima da média industrial, exatamente por essa necessidade de especialização.
Ou seja, sob qualquer ângulo, é uma indústria que tem importância significativa no Brasil. É isso que estamos buscando passar para a equipe de transição. E o que pedimos? Em primeiro lugar, a prática de preço de mercado, respeitando a cotação internacional. O Brasil ainda é importador de combustível, ainda temos deficiência em nosso parque de refino. Desconectar o preço do Brasil ao preço internacional seria uma decisão equivocada, com risco de causar uma enorme confusão no mercado, inclusive desabastecimento em certas regiões. Hoje, não é só a Petrobras que importa; há outras empresas importando, para abastecer suas revendas. É um mercado dinâmico, que precisa de preço sincero.
Outra questão que apontamos é o respeito a contratos. O governo pode mudar sua política; por exemplo, suspender o processo de privatização da Petrobras. É sócio controlador da companhia, portanto, tem direito de fazer isso. Mas o que já foi assinado, a santidade dos contratos, tem que ser respeitada.
Um terceiro ponto apresentado é a defesa de uma regulação que permita o desenvolvimento de tecnologias novas, especialmente na área de biocombustíveis. Defendemos a ideia de que hoje no Brasil existe uma camisa de força, limitando a produção de biodiesel a somente uma rota tecnológica, da transesterificação. Essa é uma tecnologia dos anos 1930, desenvolvida na Alemanha pré Segunda Guerra Mundial. Hoje existem várias formas de produzi-lo, mas a rota regulada pela Agência Nacional de Petróleo (ANP) é uma só. Desde o ano passado estamos reivindicando para que se mude a regulamentação para que no Brasil, assim como outros países, se faça biodiesel de outras formas, desde que se obedeçam às especificações. Queremos trazer para o país o conceito do biocombustível de segunda geração, que valorizará o fato de o Brasil ser um grande produtor de óleo vegetal e um grande produtor de biomassa. Trazer o hidrotratamento do óleo vegetal (HVO) e outras tecnologias que hoje estão em voga na Europa e EUA, e que no Brasil ainda não se produz devido a essa limitação.
E a última é a monofasia para os combustíveis (incidência de alíquota única do ICMS no produtor/importador, com alíquotas fixas em R$/litro e uniformes em todos os estados), aprovada este ano (LC 192/22). Isso reduziu muito o incentivo à sonegação, especialmente o “passeio” de combustíveis de um estado para outro em função da diferença de alíquotas. Esperamos que isso seja mantido. Redução de impostos é sempre bom, especialmente neste setor, onde a tributação era muito alta.
Qual sua expectativa em relação ao próximo governo?
Minha perspectiva é otimista. O povo brasileiro já mostrou o que quer nas urnas, e o que o governo já anunciou em termos de agenda pública é positivo para nosso setor. Especialmente a questão ligada à retomada de alguns investimentos na área de refino. A questão da descarbonização e da agenda de sustentabilidade também são projetos importantíssimos. Sempre viajei muito como representante do setor, hoje pelo IBP, e foi complicado ver a imagem que o Brasil estava projetando no exterior, tendo um potencial gigantesco em termos de energia. O que pedimos apenas é que haja razoabilidade, que o processo de transição seja feito sem gerar estresse desnecessário em termos de regulação, e que se possa usar e aproveitar esse enorme potencial que temos. O Brasil conta com uma dupla dimensão. Podemos ser importantes tanto no setor tradicional quanto em renováveis, e ambos não são excludentes. O que existe hoje, como mencionei, é a necessidade do que chamamos de empilhamento de energias, em que uma fonte naturalmente vai substituindo a outra, dentro de um processo razoável. E o que se torna obsoleto, vai ficando para trás. É o que pode acontecer com o carvão, com seu uso restrito a algumas atividades como siderurgia.
Leia a íntegra desta entrevista na revista Conjuntura Econômica de dezembro.
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