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Entrevistas 14 nov 2025
“Lula já aprendeu o que é uma crise de confiança em 2002”, afirma Daniela Campello
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Postado por Conjuntura Econômica

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
No início de novembro, a Conjuntura Econômica entrevistou Daniela Campello, professora associada da FGV Ebape, para saber como avalia a influência do cenário externo na atual gestão. Antecipamos trechos desta conversa, que você lerá na íntegra na edição que será divulgada na próxima semana. Confira.
Em seus estudos, você demonstra que em economias emergentes exportadoras de commodities e de baixa poupança doméstica como o Brasil o impacto do cenário externo na economia pode influenciar o voto do eleitor. Qual papel considera que o cenário externo deverá ter no ciclo eleitoral de 2026?
Uma das conclusões desse estudo, realizado com o professor Cesar Zucco (FGV Ebape), e registrado no livro The Volatility Course: exogenous shocks and representation in resource-rich democracies (Cambridge University Press, 2020), é que em cenários externos em que há extremos de bonança ou de crise, o fator sorte influencia muito mais o resultado de uma eleição do que o desempenho do governante.
Para os governantes dos países latino-americanos produtores de commodities, durante uma alta de preços, é possível promover políticas redistributivas com o excedente de recursos. Este foi o caso do boom das commodities do início dos anos 2000, que favoreceu todos os presidentes do período, de Lula aos Kirchner na Argentina, de Evo Morales na Bolívia a Rafael Correa no Equador.
Quando se está em um cenário intermediário, como é o caso hoje, as decisões de governo ganham mais influência na avaliação pelo eleitor. Atualmente a situação na América Latina é muito mais delicada politicamente, porque governos que têm uma agenda redistributiva precisam determinar de onde virão os recursos canalizados para os mais pobres. O governo Lula, por exemplo, vem tentando taxar os superricos, de promover a taxação de dividendos, e esse desafio orçamentário é uma questão hoje para qualquer governo de esquerda da região.
Considera que a recuperação de popularidade do presidente Lula em meados do ano se deu mais pela trajetória de queda da inflação – ajudada pelo câmbio – ou da reação de defesa à soberania brasileira contra as demandas de Trump com as quais o mandatário americano justificou o tarifaço?
Há um alerta que sempre faço a meus alunos, sobre a tendência de assumir que as pessoas estão prestando muita atenção na política. Basta lembrar, no início do ano, quando se atribuiu a perda de popularidade de Lula à crise do Pix, e que teve um efeito muito curto. Veja, quando trato do poder do voto econômico, não significa sugerir que as pessoas façam cálculos e comparativos da média de crescimento do país com Lula versus outros governos. Trata-se da percepção das pessoas sobre sua própria vida e da vida daqueles ao seu redor. Quando as condições materiais melhoram, a tendência é que o eleitor deseje manter o status quo. O oposto — o desejo de mudança — ocorre quando percebe sua vida piorando.
Nesse sentido, até pouco tempo atrás eu diria que existia uma perspectiva muito forte de mudança de governo. Temos observado que, desde a pandemia, com raras exceções, os eleitores têm votado para tirar os governos. Existe uma sensação de mal-estar generalizada desde que a inflação se estabeleceu no mundo, e esse fenômeno corrobora nossa tese de que o eleitor não desconta choques externos quando avalia o governo: em países muito diferentes, a insatisfação com o aumento do custo de vida vem produzindo uma tendência antiincumbente, como costumamos dizer.
Agora, além da melhora da percepção da economia, por conta do câmbio, Trump proporcionou ao PT encontrar um discurso que não tinha se consolidado ainda nesta gestão. Somando-se ao discurso redistributivo que já vinha tomando corpo à medida em que o governo tenta avançar sua agenda no Congresso, estabeleceu-se um tom nacionalista, de defesa do país contra a ingerência do presidente americano sobre decisões da Justiça brasileira – como se Lula, inclusive, tivesse controle sobre isso.
Eu considero o retorno do partido ao tema da desigualdade e da justiça social — para além de questões de identidade e religião — positivo e comparável o de novos líderes da esquerda mundial, como o recém-eleito prefeito de Nova Iorque, Zohran Mamdani.
Quais as variáveis deverão pesar no cenário eleitoral para o Executivo nacional em 2026?
A questão externa sempre importa, e como mencionei, existe uma relação entre câmbio e popularidade do presidente. É preciso monitorar para onde o câmbio irá. A agenda do governo hoje no Congresso também importa, de passar as principais medidas mais redistributivas – como a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, que foi uma grande vitória.
No campo fiscal, acho que o governo Lula já aprendeu o que é uma crise de confiança lá em 2002, e não considera correr o risco de uma outra crise. Mesmo a presidente Dilma Rousseff, reeleita em um período desfavorável, colocou Joaquim Levy na Fazenda com o propósito de fazer ajustes.
O último ano é sempre aquele em que o governo tenta entregar mais, não apenas no Brasil como em qualquer democracia, até porque é a forma como o eleitor se sente nesse período que determina seu voto. Nesse sentido, Lula terá um eventual espaço para redistribuir taxando dividendos, taxando os mais ricos, isentando de imposto de renda os mais pobres, de forma a aumentar suas chances de reeleição. Mas não vejo esse esforço acontecendo sem considerar os riscos de uma crise fiscal. Se em 2002 a crise de confiança favoreceu, hoje ela seria desfavorável ao próprio Lula.
Caso não haja mudanças significativas no cenário externo e o governo consiga manter certo grau de aquecimento da economia, qual considera que será o flanco a ser explorado pela oposição?
Não tenho dúvida de que será o da segurança. Esse tema está dado na região desde que Nahyb Bukele, de El Salvador, se tornou o presidente mais popular por conta de um governo supressor de direitos, mas que recobrou a capacidade de ir e vir da população.
Dada a relevância deste tema na agenda na América Latina, sobretudo com a internacionalização de narcotráfico, essa discussão precisa ser feita com urgência. Uma crítica comum à esquerda em geral é de que ela tem poucas respostas para a repressão ao crime. Por outro lado, é preciso compreender as implicações de uma população que abre mão do processo legal e da justiça em nome da segurança. Isso não pode ser entendido como uma autorização para a supressão de direitos, como vem sendo abertamente defendido por Bukele e outros políticos de direita da região.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.


