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08 Jul 2025

Livio Ribeiro responde: ameaça de Trump a alinhamento aos Brics, pacote orçamentário dos EUA e crescimento chinês

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Como avalia a ameaça de Trump a países que se alinhem às políticas dos Brics?

A Declaração do Rio de Janeiro resultante da Cúpula dos Brics está longe de ser dura, mas é um passo na direção de condenar o movimento recente dos Estados Unidos de ataque ao multilateralismo. Por isso, não surpreende que logo depois da divulgação do documento Trump tenha feito essa ameaça genérica.

Nesta segunda (7/7), começamos a ver a divulgação de cartas aos países que não estão em vias de fazer um acordo comercial com os EUA sinalizando novas taxações e o prazo para sua execução, que inicialmente foi anunciado como 1º de agosto, dando alguma margem para negociações. Entre eles, estão Japão e Coreia do Sul, com tarifas gerais de 25%, o que é um absurdo (as tarifas são independentes de taxas adicionais a setores e produtos selecionados; o déficit comercial dos EUA com ambos os países em 2024 foram na casa dos US$ 60 bilhões). No caso da África do Sul, foi anunciada tarifa de 30%; Laos e Myanmar, 40%, o que mostra que os resultados obtidos por Trump em seu bullying inicial até agora foram parcos e o presidente está dobrando a aposta, com mais coisa por vir.

Na semana passada, o presidente dos EUA conseguiu aprovar o pacote orçamentário com corte de impostos com impacto na arrecadação estimado em US$ 4,5 trilhões, que inclui aumento de gastos com segurança fronteiriça e redução de programas sociais. Isso implica, de outro lado, o imperativo de ampliar a arrecadação em outras fontes. Como analisa a reação inicial dos mercados diante dessa aprovação e seu impacto fiscal?

Trump nunca sinalizou que seria fiscalista. Alguns analistas tomaram inicialmente a criação do Doge (Departamento de Eficiência Governamental, na sigla em inglês) como sinal de compromisso com corte de gastos, mas a agenda de fato proposta nesse âmbito se mostrou infinitamente menor do que foi indicado, com economias muito menores que as sinalizadas, e um efeito na máquina pública terrível. As pessoas podem confundir funcionamento da máquina com corte de gordura – que todo governo tem – mas a forma como o corte foi proposto apontou que a questão era libertária. O foco do libertarismo econômico não é na economia via busca de eficiência, mas impedir a organização do Estado, entendendo que ele é sempre nocivo à sociedade. Evidentemente estado ineficiente é nocivo, mas é importante ter Estado para algumas funções, algo que os libertários não reconhecem.

As estimativas mais conservadoras apontam que o pacote aprovado ampliará em US$ 2,5 bilhões a US$ 2,8 bilhões a dívida pública em dez anos. Nossa estimativa é mais negativa, de um aumento de US$ 3,3 bilhões. Como o dólar dos EUA é moeda de reserva, isso teoricamente significa margem para se endividar mais. O problema é que Trump está fazendo de tudo para tirar essa prerrogativa americana, e isso cria problema para ele. A lógica do pacote é aquela de sempre: crescerei tanto que vou gerar receita em velocidade superior ao aumento da dívida, como se houvesse moto contínuo na economia. Porém, mesmo os mais apaixonados pela administração Trump, o que ele representa, entendem agora que o presidente deu um passo numa direção muito regressiva, que é muito bom para o andar de cima, e muito ruim para o andar de baixo, aumento a desigualdade. Além disso, é uma direção que aumenta loucamente o endividamento. O mercado vai punir no curto prazo? Acho que não. Mas, como disse, Trump tem se esmerado em derrubar essa condição de reserva de valor americana, e haverá tremeliques nesse aspecto.

Em conversa anterior, no início da guerra tarifária deflagrada entre Trump e China, destacou o pacote de estímulos que a China tinha preparado antecipadamente para mitigar impactos de um conflito comercial em seu crescimento econômico. O país tem tido sucesso em estimular o consumo interno?

O governo chinês ainda está concentrando as medidas eminentemente no lado da oferta. Há uma estratégia que resultará num horizonte mais longo, de 15 a 20 anos, mas eles precisam de uma transição mais rápida, e a resposta não está chegando para acelerar a troca de padrão de crescimento das exportações e investimento para consumo doméstico. Isso não significa, entretanto, que o crescimento observado no primeiro semestre aponte algo longe da meta de expansão da economia em 2025, em torno de 5% do PIB. Eles conseguiram criar um carregamento estatístico importante no início do ano, e a estimativa é que os dados do segundo trimestre – cujo número oficial será divulgado dia 14/7 – virão mais forte do que o imaginado. Com isso, o problema de desaceleração econômica continua sendo esperado e postergado.

Há muito estímulo na economia e, mesmo que esses recursos não sejam alocados da melhor forma, nos setores mais adequados, se trata de um montante grande, e isso faz diferença. Levando em conta esse pacote de estímulos que começou a ser aplicado na segunda metade de 2024, e as relações China e Estados Unidos caminharem de forma minimamente ordenada, ainda é possível pensar em um crescimento perto dos 5% este ano. Mesmo que se entregue um crescimento de 4,8%, é um ótimo desempenho em meio a uma guerra comercial. A China segue surpreendendo, e o mercado está se convencendo disso.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.