Impacto da política comercial de Trump na atração de investimentos pelo Brasil ainda é incerto, afirma Livio Ribeiro

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
O Blog da Conjuntura conversou com Livio Ribeiro, pesquisador associado do FGV IBRE, sobre o início da sobretaxação de 50% imposta pelo governo Trump às importações de produtos brasileiros fora da lista de exceções:
Com avalia o início da sobretaxação das importações de produtos brasileiros pelos EUA e a reação do governo brasileiro, em especial quanto às medidas de apoio aos exportadores atingidos por esse tarifaço?
Afora o impacto os segmentos diretamente atingidos, o efeito macroeconômico direto sobre PIB e o emprego é muito pequeno dentro da estrutura econômica brasileira geral. Trata-se de uma perda que estimo entre US$ 4 bilhões e US$ 5 bilhões em12 meses, que pode ser diluído na volatilidade da balança comercial nesse período. Por enquanto, tampouco estamos identificando nossas questões domésticas afetarem a percepção de risco, portanto, a taxa de câmbio, o que aponta a um cenário de dólar fraco. O anúncio de Stephen Miran para a diretoria do Fed só reforça essa perspectiva para o dólar.
Tudo isso conspira para que não se tenha um efeito de mudança no preço cambial, portanto, é preciso ir para o efeito micro relevante, que está nos segmentos que serão sobretaxados, como proteína bovina, pescados e café. No Brasil, isso pode ter um efeito positivo no IPCA de curto prazo, pontual. Vale destacar que, no caso das implicações para os americanos, ainda é complexo calcular os efeitos, porque estão acontecendo múltiplas mudanças de preços relativos ao mesmo tempo. Há quem defenda que, com o valor estimado em tarifas de importação que os EUA estimam receber, os efeitos do pacote fiscal de Trump serão muito menores do que os analistas projetam, mas esse argumento é construído considerando que os Estados Unidos são o principal demandante do mundo e vão conseguir jogar o custo para fora do país. Entretanto, é preciso calcular se de fato a importância da posição da demanda americana como formador de preço faz sentido na maioria das linhas de comércio afetadas, ou se trata de um argumento formado mais na base da paixão do que da análise.
Voltando ao Brasil, quanto às medidas anunciadas pelo governo para mitigar o impacto do tarifaço nos setores afetados, em especial médias empresas, vale o que comentei em entrevista ao Valor Econômico (link aqui, acesso restrito a assinantes do jornal), sobre os riscos de confundir apoios setoriais, que são benefícios específicos, com difusão de custos para a sociedade. No mais, é difícil prever como seguirão as negociações, dado que a base da sobretaxa brasileira não se deu em bases estritamente comerciais.
Qual impacto projeta para a atração de investimento ao Brasil?
Ainda é cedo para avaliar, pois se trata de um debate que será organizado em dois níveis. Um deles é a disposição a investir como função da taxa de retorno esperada na moeda local. Se o real deprecia, fica mais barato investir aqui. Então, mesmo que o retorno seja mais arriscado, o movimento de preço positivo pode compensar. Essa, entretanto, não é a tendência por enquanto. O que mais me preocupa nesse campo, na verdade, é a possibilidade de alguma estratégia na linha da Lei Magnitsky (usada contra o ministro Alexandre de Moraes, que impõe sanções financeiras a acusados de corrupção ou violação grave dos direitos humanos), porque aí se gera reverberações no setor financeiro local, e uma incerteza muito maior sobre as regras do jogo. Se alguma ameaça é feita no campo regulatório, por exemplo, para remessa de lucros de empresas, entra-se em um terreno infinitamente mais pantanoso, com risco de mais impacto na propensão a investimento.
O segundo nível, mais geral, é que Trump está fazendo tudo que pode para forçar investimentos dentro dos Estados Unidos. Por ora, há muitas promessas bilionárias de empresas nesse sentido, num horizonte de cerca de três anos. Assumindo que essas companhias não aumentarão o Capex (despesa de capital), isso significará retirada de recursos de outras operações ou projetos, o que pode incluir o Brasil. Teremos que analisar de forma organizada daqui adiante. Mas, por ora, são apenas promessas.
Considera que o aumento das sanções comerciais dos EUA contra a Índia é um mau sinal para o Brics como um todo?
Não se trata exatamente de olhar os Brics, mas coisas que já estavam no radar. Além da preocupação em enfraquecer a China dentro do contexto das relações Sul-Sul, que não é uma novidade, o debate em torno das importações de petróleo russo pela Índia ajudarem a financiar a máquina de guerra russa já estava sendo feito na Otan de forma geral. Parece-me na verdade que isso está muito mais alinhado ao fato de o presidente da Rússia Vladimir Putin ignorar os primeiros pedidos de Trump por um cessar-fogo na Ucrânia. No final de abril, Trump conseguiu um acordo com a Ucrânia para exploração de minerais raros, mas faltou, literalmente, combinar com os russos, e aparentemente isso não aconteceu.
E no me me parece, na verdade, que tá muito mais alinhado ao fato do Putin simplesmente ignorar eh os pedidos de pelo menos os primeiros pedidos de Trump para que se, é, buscasse um cessar-fogo na Ucrânia. Os Estados Unidos conseguiu o que queria na Ucrânia, principalmente na discussão de terras raros e agora a Rússia tem que parar, porque senão vai quebrar o brinquedo, né? Só que você tinha que literalmente combinar com os russos, e aparentemente isso não aconteceu (nova reunião entre Putin e Trump está marcada para o próximo dia 15, no Alasca, à qual o líder ucraniano Volodymyr Zelensky pleiteia participar).
Esse é um tema que também é complexo para o Brasil. Em termos estritamente econômicos, fez sentido para o Brasil ampliar as compras de diesel russo em 2022, pois o país estava vendendo mais barato, visando a contornar as sanções desde o início da guerra contra a Ucrânia. Mas concentrar as importações desse produto na Rússia (64,6% do total em 2024) não é adequado em termos estratégicos. Afora a questão geopolítica envolvendo os EUA, o líder russo também é conhecido por decisões tempestivas.
Como avalia que essa artilharia tarifária mais pesada para o Brasil pode afetar a relação do país na América do Sul – levando em conta agendas como a do Mercosul?
Parece-me que na região há visões muito diferentes a respeito das implicações da administração Trump. A princípio, é possível dizer que o debate fica interditado, pois qualquer tipo de negociação/ acordo hoje que não seja com os Estados Unidos, o governo Trump pode questionar, não gostar, e as implicações disso ninguém pode prever. É a volta de uma política do “Big Stick” (“grande porrete”, de promoção da influência dos EUA na América Latina, que no governo de Theodore Roosevelt foi usada via ameaça militar). Nesse sentido, a tendência é que a região sofra.
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