“Educação financeira dialoga com nossa proposta de ensino ‘cultura maker”
Renan Ferreirinha, secretário municipal de Educação do Rio de Janeiro
Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
Este ano, o Rio de Janeiro se destacou ao registrar uma das maiores adesões ao Aprender Valor, programa desenvolvido pelo Banco Central para promover educação financeira aos estudantes de escolas públicas do ensino fundamental. O estado foi líder em termos absolutos de adesões, com 1.209 escolas, das quais 749 são da capital, representando uma cobertura de 75% das instituições que oferecem o fundamental na capital fluminense. Nesta conversa para a Conjuntura Econômica, Renan Ferreirinha, secretário municipal de Educação do Rio de Janeiro, defende a importância de se promover a educação financeira desde cedo, e afirma que esse ensino dialoga com a proposta “cultura maker”, ou mão na massa, que a Secretaria pretende emplacar com a implementação dos Ginásios Experimentais Tecnológicos (GETs), grande aposta do governo municipal no campo da educação.
Como a educação financeira se enquadra no trabalho da Secretaria de Educação?
Sabemos que é preciso ajudar a população a lidar melhor os as finanças, e a educação tem papel fundamental nisso. Trouxe esse tema na minha bagagem – como deputado estadual, por exemplo, fui coautor do Programa de Educação Financeira (Lei 9.881), aprovado em 2022, que prevê a implementação da educação financeira no currículo do Fundamental II e do Ensino Médio, para trabalhar conceitos básicos como de orçamento familiar, balanços financeiros, reconhecimento de diferentes tipos de pagamento, consumo consciente, de forma prática. Se observar os casos internacionais de sucesso, como o da Eslovênia, que é um grande exemplo em educação digital financeira, verá que o tema não é tratado em uma aula específica, mas incluído dentro das demais matérias, motivando o desenvolvimento dessas habilidades.
Esse tipo abordagem está em consonância com os nossos GETs – Ginásios Experimentais Tecnológicos. A proposta nos GETs é que os professores articulem uma educação inspirada no conceito “cultura maker”, ou seja, uma educação mão na massa. Para que a escola seja atrativa de fato para o jovem, ela precisa estar próxima da realidade e apresentar uma perspectiva de futuro que faça sentido para esse aluno. Por muito tempo investimos na noção de ensinar incentivando a resolução de problemas como daquelas perguntas de matemática “encontre o X”. Isso não é nada parecido com a vida real. Ninguém vai para o trabalho e ouve: “vou lhe dar todas essas ferramentas, mas esconderei uma para você achar". Na vida real, a pessoa tem ferramentas à frente, e a questão é o que produzir com elas.
A metodologia dos GETs tem a ciência, tecnologia, engenharia, arte e matemática como seu fundamento, e essa pegada incentiva o aluno a se dedicar a entender sua própria evolução. Além dessa cultura nas aulas, os GETs contam com salas de leitura e um colaboratório, que é o coração de um GET. Lá os alunos têm à disposição de máquinas de costura eletrônicas a impressoras 3D, onde a ideia do “mão na massa” acontece pra valer e onde também se inclui educação financeira, para que os alunos façam escolhas de como aproveitar melhor os recursos disponíveis. E aí entra a criatividade, o protagonismo, o trabalho coletivo, o pensar fora da caixa, que é o que queremos fomentar na educação carioca.
Desde quando existem os GETs? Quantos são?
Lançamos o conceito em 2021. Desenvolvemos cinco unidades-piloto em 2022, fecharemos 2023 com 70 e, no ano que vem, com 200 unidades. Em média, a adaptação de cada escola para se transformar em um GET demanda um investimento de R$ 200 mil. Isso exclui, claro, as escolas novas que já nascem GET, que implicam um investimento mais alto.
Veja, esse trabalho também está estreitamente relacionado com uma prioridade macro do governo Eduardo Paes, que é tornar o Rio de Janeiro a capital da matemática e da inovação, um polo mundial e referência na América Latina nesses dois temas. Na inovação, temos coisas importantes, como a conquista de trazer o Web Summit, que é o maior evento em tecnologia da inovação do mundo, aqui para o Rio. Além do projeto do hub de tecnologia do Porto Maravalley. Também temos tradição em matemática, por abrigar importantes centros de pesquisa, e que se ampliará com a inauguração, em 2024, das aulas no Impa Tech, primeiro curso de graduação do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa). Ele será sediado na região do Porto Maravalley, e o presidente Lula estará aqui na semana que vem para fazer o lançamento oficial (o projeto conta com investimento de R$ 16,7 milhões do governo federal). Parte do processo seletivo para a primeira turma será feita a partir do desempenho dos estudantes na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). No nível municipal, também promovemos desde 2021 uma olimpíada de matemática, que só perde para a brasileira em alunos participantes - na última, foram 400 mil - com premiações que vão de computadores até uma viagem para conhecer a Disney e a Nasa.
Recentemente o presidente sancionou a lei que cria a Escola em Tempo Integral. Quais as perspectivas da Secretaria com o novo programa?
Estamos em consonância com o que o governo federal tem colocado como prioridade. Estive em Brasília para o lançamento do programa, ocasião inclusive em que o ministro Camilo Santana citou o nosso GET como exemplo de boa prática. Ele esteve no Rio na semana passada conhecendo o projeto e gostou muito, por dialogar com três situações. A primeira é corrigir o atraso histórico institucional do Brasil no tema educação em tempo integral. Se observar, boa parte dos países que se tornaram ricos não tem esse conceito de escola parcial. O Rio é a a terceira capital com maior proporção de alunos em tempo integral, com 44% do total. Com esse programa, o MEC tem como meta chegar a 25% em 2026. Aqui, queremos chegar a 50%. O segundo ponto é, como já mencionei, tornar a escola atrativa, para não favorecer a evasão. E o terceiro ponto é contar com um regime de colaboração. Acho que a escola em tempo integral é um projeto que deve contar com indução do governo federal. Precisamos fazer essa virada de chave, garantindo a oferta de escolas em tempo integral que fomentem o pensamento crítico.
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