Desenvolvimento de habilidades socioemocionais favorece inserção no mercado de trabalho

Bruno Ottoni, pesquisador associado do FGV IBRE

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

O afastamento de crianças e jovens do convívio com professores e colegas de classe devido à pandemia não compromete somente o aprendizado formal como pode afetar habilidades socioemocionais, cada vez mais observadas por empresas em seus processos seletivos. Nesta entrevista, Bruno Ottoni, pesquisador associado do FGV IBRE, pesquisador líder da área de mercado de trabalho do IDados, apresenta resultados preliminares de um estudo sobre como essas habilidades afetam o potencial de empregabilidade de homens e mulheres no Brasil, e alerta para a necessidade de inserção de treinamentos dessas habilidades no sistema educacional. 

O que o motivou a pesquisar sobre habilidades socioemocionais entre jovens brasileiros?

Atualmente, a literatura que trata de desenvolvimento de capital humano e treinamento separa a aquisição de habilidades por parte dos indivíduos em duas dimensões. Uma delas, já bem estudada, é a de habilidades cognitivas, que em linhas gerais determina a capacidade dos indivíduos de aprender, memorizar, focar, e que já vêm sendo discutidas há bastante tempo. A outra parte, que tem ganhado atenção mais recentemente, são as habilidades socioemocionais, que no fundo tem a ver com a capacidade emocional de um indivíduo em lidar com outras pessoas e com sua própria vida.

No Brasil, ainda não temos bases de dados que misturem informações de mercado de trabalho com habilidades socioemocionais. Foi aí que no IDados buscamos desenvolver esse estudo, que está em andamento, do qual também fazem parte as pesquisadoras Mariana Leite e Thais Barcellos. Fomos a campo e, junto a um parceiro da internet, entrevistamos 3,2 mil jovens brasileiros de 16 a 29 anos. Coletamos informações de mercado de trabalho - se cada um está empregado ou não, ocupado formal ou informalmente -, outras como escolaridade da pessoa e dos pais, se tem filhos. E aplicando um teste dos chamados Big Five, como são conhecidas as cinco dimensões das habilidades socioemocionais. São elas a extroversão, a amabilidade, conscienciosidade, abertura ao novo e o neuroticismo (ver quadro). De acordo com a literatura, essas são as dimensões mínimas que formam a personalidade de alguém, com as quais se pode descrever bem o comportamento dos indivíduos.  

Nosso objetivo, no final das contas, foi comparar pessoas com níveis diferentes de habilidades socioemocionais e ver em que medida essas habilidades estavam relacionadas com o desempenho no mercado de trabalho. 

O que identificaram?

Nossos resultados ainda são preliminares, mas já observamos efeitos expressivos. Em primeiro lugar, é preciso dizer que o estudo é feito separando homens e mulheres, pois entende-se que estes têm habilidades diferentes. No caso das mulheres, o resultado é impressionante, pois mudanças em todas as habilidades socioemocionais têm efeitos estatísticos significativos sobre a participação na força de trabalho.

Essa é uma questão muito importante, porque especialmente no Brasil temos uma baixa participação das mulheres no mercado de trabalho. Claro que esta é uma discussão que perpassa questões muito mais amplas, como disponibilidade de creches, um formato de licença maternidade rígido, que não permite os homens dividam de forma mais homogênea com as mulheres o cuidado do filho no pós-parto, e mesmo questões culturais relacionadas à divisão das tarefas domésticas (leia a análise de especialistas). Mas uma parte dessa questão pode estar relacionada com habilidades socioemocionais. 

No nosso estudo, identificamos que uma mulher com um nível de extroversão abaixo da mediana tem uma taxa de participação no mercado de trabalho 10 pontos percentuais menor do que a mulher cuja extroversão se encontra acima da mediana. Ou seja, há um espaço grande para se trabalhar a favor de uma maior entrada dessas mulheres na força de trabalho. No caso de um aumento da amabilidade, da conscienciosidade e da abertura ao no para cima da mediana observada, esse efeito seria de 8 pontos percentuais. Já um neuroticismo alto reduz em 4,6 pontos percentuais essa taxa de participação. 

No caso dos homens, a dimensão com maior impacto é a de abertura ao novo. Níveis acima da mediana aumentam em 6,6 pontos percentuais a participação dos jovens no mercado de trabalho. Em segundo lugar ficou a conscienciosidade (6 pp), em terceiro a extroversão (4,6pp). As outras duas dimensões não demonstraram resultado significativo para homens. 

Por que o impacto do desenvolvimento dessas habilidades para a empregabilidade é maior no caso das mulheres? 

Isso pode estar relacionado com o fato de que os homens se inserem em algumas ocupações nas quais as habilidades socioemocionais são menos importantes. Também, a que homens em geral apresentam menor grau dispersão. Ou mesmo questões culturais que ainda pesam no preparo da mulher para o mercado de trabalho. Mas ainda não chegamos a analisar esses fatores. 

Quando falamos de mudanças estruturais no mercado de trabalho que estão sendo aceleradas com a pandemia, devido ao aumento da digitalização, quais habilidades socioemocionais passam a ser mais importantes? 

Cada uma pode estar relacionada com setores diferentes. Hoje observa-se, por exemplo, uma alta demanda por cientistas de dados, profissionais da área de tecnologia da informação. Esse é um tipo de ocupação na qual a conscienciosidade é muito importante, pois é uma atividade que demanda atenção aos detalhes, organização, planejamento, mais do que espontaneidade, por exemplo. Mas há “empregos do futuro” de outra natureza. Por exemplo, com o envelhecimento da população, a demanda por cuidadores aumentará. E uma característica importante para quem cuida de idosos é a extroversão. Ou seja, ter boa habilidade de convivência com pessoas. No fundo, quanto mais as pessoas desenvolverem suas habilidades, no maior número de dimensões possível, mais bem preparadas elas estarão para se adequar a um maior número de ocupações. Isso aumentará o leque de opções delas. 

É possível melhorar as habilidades socioemocionais em qualquer momento da vida?

Isso é uma questão interessante, que mostra que não selecionamos nossa mostra por acaso. Como mencionei, quando falamos de políticas públicas para melhorar a inserção dos indivíduos no mercado de trabalho, há duas dimensões: a cognitiva, e a socioemocional. Quando olhamos para habilidades cognitivas, a literatura é clara no diagnóstico de que estas são consolidadas até os 4 ou 5 anos de idade. Daí em diante, os avanços são pequenos. Então, para nossa base de entrevistados, que é de indivíduos jovens, de 16 a 29 anos, do ponto de vista cognitivo ‘Inês é morta’, pois o mais efetivo é intervir na primeira infância. Mas, do ponto de vista de habilidades socioemocionais, a literatura aponta que é possível desenvolvê-las até os 30 anos. Ou seja, para melhorar a vida dos jovens em relação ao seu futuro no mercado de trabalho, tudo indica que políticas visando ao desenvolvimento de habilidades socioemocionais podem fazer diferença. 

Que tipos de programa são adotados para desenvolver essas habilidades? 

Há cursos para isso. Nos Estados Unidos, por exemplo, um dos programas que ficaram famosos foi o Becoming a Man (BAM). Ele foi desenvolvido nas escolas públicas de Chicago - nesse caso, focado em colaborar na redução do envolvimento de jovens no crime e melhorar seu aprendizado. O programa chamou a atenção de Barack Obama quando era presidente, e inspirou a criação da My Brother’s Keeper, com jovens negros como público-alvo. 

Assisti certa vez uma apresentação de Sara Heller, uma das pesquisadoras que avaliou o impacto do BAM. Ela compartilhou a experiência de ter assistido a uma aula do BAM, na qual o instrutor dividiu o grupo em duplas e deu uma bola de basquete na mão de um membro de cada dupla. Logo, disse que daria 30 segundos para que o outro membro conseguisse tomar a bola. Depois de muita briga, correria e confusão, o tempo acabou sem nenhuma das duplas ter cumprido a meta. Logo, o instrutor mostrou que em nenhum caso ocorreu aos jovens conversar para obter a bola, e que a falta de controle da impulsividade pode levar a consequências para toda a vida. Lembre-se que, no caso, eram jovens expostos a gangues e posse armas, para os quais um crime poderia lhes custar a chance de recompor sua vida no futuro. 

Quais os desafios em inserir o desenvolvimento de habilidades socioemocionais nos currículos do ensino público no Brasil, especialmente em um contexto de aulas remotas devido ao impacto da pandemia?

Trabalhar esse tema nas salas de aula pode parecer mais difícil do que de fato é. Penso que talvez seja uma dimensão em que possamos avançar bastante mesmo sem gastos muito grandes. Bastaria incluir na grade curricular, de alguma maneira, matérias que atentassem para essa área do desenvolvimento dos jovens. Mas é claro que se trata de um tema que demanda mais estudos. 

Agora, a questão das aulas remotas efetivamente é um problema, que nos Estados Unidos começou a ser estudado antes mesmo da pandemia. Nesses estudos, pesquisadores comparam o desenvolvimento de habilidades socioemocionais entre jovens que concluíram o ensino médio seguindo o ciclo tradicional de aulas nas escolas, e outros que receberam seu diploma sem trilhar esse percurso - ou seja, realizando testes depois de estudar por conta própria, que é algo permitido naquele país. O que já se tem documentado é que as habilidades socioemocionais dos jovens que estudaram sozinhos para concluir o ensino médio são mais baixas, por estes não terem convivido com outras pessoas no ambiente escolar, e que muitas vezes acabam registrando um desenvolvimento pior no mercado de trabalho.

Quando houver a normalização das aulas presenciais com o controle da pandemia, será ainda mais importante dar atenção ao desenvolvimento dessas habilidades. É muito provável que esse desenvolvimento tenha sido comprometido com o isolamento e, como já estudado, isso pode fazer diferença no futuro dos jovens no mercado de trabalho. 

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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