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Entrevistas 16 set 2025
“A agenda climática não será abandonada, só mudará de nome”, afirma Jorge Arbache
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Postado por Conjuntura Econômica

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
Confira a conversa de Jorge Arbache, professor de Economia da UNB, à Conjuntura Econômica sobre Trum e a agenda climática:
As contrapartidas em investimento produtivo que o governo dos EUA pedem para fechar acordos comerciais, como aconteceu com Europa e Japão, ameaçam a atração de investimentos para o Brasil, em especial na agenda de powershoring – atração de investimento direto motivada pela disponibilidade de energia limpa e abundante?
Já observamos um desvio de investimento com o Inflation Reduction Act, no governo Biden. Projetos que avaliavam se estabelecer no Brasil, como na área de fertilizantes, acabaram indo para os EUA em função dos grandes subsídios. O movimento que vemos agora tem outras razões, e acho que é preciso esperar para ver. Ainda se tratam de promessas, e entendo que tanto europeus quanto japoneses deverão estender o prazo de definições, observando a evolução do governo Trump, de sua popularidade, de como o partido republicano se encaminha para as eleições de meio de mandato no ano que vem. Do que foi divulgado até agora, não há um mecanismo de enforcement nesse acordo que defina, por exemplo, compromissos iniciais de determinado montante de dólares.
O Brasil precisa calibrar sua estratégia para atração desse investimento motivado pela transição energética?
Acho que as políticas carecem de foco. A Nova Indústria Brasil (NIB), tem uma amplitude grande suficiente para dificultar o avanço em todas as missões contempladas. É importante reconhecer que o governo tem feito muita coisa, muitas legislações foram aprovadas – como a do mercado de carbono, em fase de regulamentação, a do Combustível do Futuro, incentivando biocombustíveis. Mas ainda é preciso coordenar mais e melhor com os atores, bancos públicos e de desenvolvimento os vários instrumentos financeiros que foram desenvolvidos, e em torno de metas específicas e medidas muito práticas e pragmáticas para viabilizar esses investimentos, como uma taxonomia global e questões de certificação.
Na COP 30, que será realizada em novembro, em Belém (PA), o Brasil tem a chance de marcar terreno nesse campo. A posição oficial do Brasil é firmada em pilares como o valor da floresta em pé, ou seja, da sustentabilidade como driver de crescimento; os biocombustíveis; as NBCs, que são normas que definem informações corporativas quanto a práticas de sustentabilidade. Acho, entretanto, que ainda falta ênfase no papel do comércio como ferramenta de descarbonização global. No momento de aumento de protecionismo que vivemos, trata-se de um tópico em que o Brasil tem muito a ganhar, protegendo o meio ambiente ao mesmo tempo em que promove o desenvolvimento econômico e está descarbonizando. Mas é preciso olhar para essa área sem ingenuidade, de forma pragmática, promovendo todo o potencial para o aço verde, a amônia verde, entre tantos outros produtos.
Em que medida a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris afeta a evolução dessa agenda?
Por mais que pareça que não vai rolar, os fenômenos climáticos extremos que estão acontecendo numa intensidade cada vez mais dramática, com cada vez mais frequência, estão provocando uma brutal perda do valor dos ativos em vários lugares dos Estados Unidos, impossível de ser ignorada. Entre outras razões, porque essas regiões perderam a cobertura de seguradoras. E quando você não tem seguro que cubra a sua fábrica, a sua casa, o valor desses ativos despenca. Veja por exemplo o caso da Califórnia, atingida por incêndios no final de 2024. Estimativas apontam a uma perda de US$ 280 bilhões. Estudo divulgado recentemente apresenta estimativas preocupantes também para a Europa, indicando várias regiões que ficarão inabitáveis. Assim, seja devido a perdas nos mercados financeiros, seja pela piora da qualidade de vida de pessoas comuns, seremos tão dramaticamente afetados que os governos serão obrigados a manter essa agenda, provavelmente rebranded, com outro nome. Ao invés de climática, será de segurança nacional.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.


