“Sem meta para o PIB, China investirá na qualidade do crescimento”

Marcos Caramuru – diplomata, sócio da Kemu Consultoria em Xangai

Por Lia Valls e Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Do alto de seus 16 anos de vivência no continente asiático, 12 dos quais na China, Marcos Caramuru observa que a pandemia trouxe um novo ponto de virada para os chineses. “O governo chinês está olhando o mundo como menos favorável à China, e mais perigoso”, afirmou, em entrevista para a Conjuntura Econômica de janeiro, que contou com a participação de Lia Valls, pesquisadora associada do FGV IBRE. Leia a seguir trechos destacados dessa conversa.

Em 2021 o Partido Comunista Chinês cumprirá 100 anos com o mundo, ao que tudo indica, alimentando maior desconfiança do país, porém mais dependente de sua capacidade de recuperação econômica. Que balanço se poderá esperar por parte dos chineses?

A economia chinesa ganhou grande notoriedade na vida internacional na crise de 2008. Foi a partir dali que a China se tornou parceiro comercial de um número grande de países, e passou a fazer investimentos externos muito expressivos, acima de US$ 120 bilhões por ano, durante um longo período. Com a crise de Covid-19, a situação mudou radicalmente. Neste momento, acho que o governo está olhando o mundo como menos favorável à China, e mais perigoso. Isso está fazendo com que a China fique mais voltada para si. Não é algo que eles planejaram, mas com o qual eles têm que lidar.

Em 2020, o volume de investimentos diretos chineses se reduziu muito, a menos de US$ 90 bilhões. Parte dessa redução deve estar relacionada à pandemia, pois as viagens se tornaram mais difíceis, prejudicando a identificação de investimentos. Mas também devido a essa percepção da China sobre o mundo. Acho que acontecerão três coisas transformadoras nesse período. A primeira será um aumento dos investimentos em tecnologia, que começaram a partir de 2010. A segunda é que a China estará mais focada na qualidade do crescimento. E a terceira coisa é que será inevitável uma maior integração da China aos fluxos financeiros internacionais ao longo do tempo.

A preocupação com uma mudança no padrão de crescimento é algo que a China persegue há alguns anos (ver edição de outubro de 2015 da Conjuntura Econômica). O que provocaria essa intensificação agora?

Até 2020, a China operou com metas de crescimento. Elas é que motivavam a ação de gestores locais, governadores, os prefeitos, ministros, todos dependentes de seu cumprimento para garantir a ascensão no sistema político chinês. Com a pandemia e a impossibilidade de prever a taxa de crescimento, entretanto, a China pela primeira vez eliminou essa diretriz e passou a falar de crescimento de qualidade. Se isso for efetivamente eliminado e a qualidade for o novo parâmetro, o incentivo a produzir crescimento a qualquer custo, investir em estradas levando do nada a lugar algum, ou fazer investimentos imobiliários em áreas com sobreoferta já não existirão mais.

Considera que os chineses tenderão a ser mais belicosos?

Não. Acho que se corre o risco de os Estados Unidos ficarem mais belicosos. Se comparar a gestão de Donald Trump com a de Barack Obama, Obama tinha uma atitude um pouco mais belicosa, porque a visão dele era de que os Estados Unidos tinham se afastado do leste da Ásia, e tinham que voltar. Então ele mandou navios do Oriente Médio para o Pacífico, foi criando situações de pequenas irritações no relacionamento dos países com a China, mandando representantes militares para fazer visitas. Possivelmente, com Biden, o cenário do Pacífico será um pouco mais agitado, uma área mais complexa, digamos assim, do que foi durante a administração Trump. Acho que Biden terá uma situação mista. De um lado, terá espaço para dialogar com a China em temas como mudanças climáticas, desnuclearização. Mas, ao mesmo tempo, fará pequenas provocações no cenário do Pacífico.

Em sua opinião, haverá limite para o pragmatismo chinês frente às bravatas diplomáticas do atual governo brasileiro – e como considera que o país deverá atuar com a saída de Trump da presidência dos Estados Unidos?

Tenho poucas dúvidas de que o watershed (divisor de águas) é o 5G. Veja, ninguém teme o 5G propriamente pela Huawei, mas porque acham que por trás da Huawei existe a China interessada em informações. Então considero esse tema relevante, por não ser só empresarial, mas por uma visão estratégica.

Quanto aos Estados Unidos, acho que o Brasil ganhou um diálogo com a administração Trump que ele não costumava ter com o país. Não vejo nenhum ponto positivo nisso, ao contrário, porque foi simplesmente a incorporação de uma ideologia que na nossa realidade é desprovida de sentido. Acho que, com Biden, voltaremos a ocupar o espaço relativo que tínhamos. Teremos que fazer esforços para chamar a atenção dos Estados Unidos, e também teremos que fazer esforços para chamar a atenção da China. Então, toda essa bravata que vimos recentemente vai perder sentido completamente. E vai ter que ser substituída por um conjunto de ações determinadas, para nos manter próximos de ambos os países. Não será fácil, porque depende de muita estratégia, muita diplomacia, e de uma certa maturidade de visão de mundo. Considero que há dois fatores essenciais para a visibilidade do Brasil pelo mundo. O primeiro é nossa capacidade de organizar o próprio Brasil. Organizar a casa, a economia, ter políticas sociais compatíveis com nossas necessidades, ter políticas de maneira geral compatíveis com o que se considera uma boa gestão governamental. A segunda, e não menos importante, é nossa capacidade de ter presença na América Latina e diálogo com os países latino-americanos. Acho que, sem esses dois fatores, nossas credenciais para operar no exterior se reduzem consideravelmente.

 


Faça login e leia a entrevista completa na edição de janeiro da revista Conjuntura Econômica.

Ainda não é assinante?

A revista Conjuntura Econômica leva ao leitor artigos, entrevistas e reportagens sobre a economia brasileira e internacional, além de uma abrangente seção de estatísticas e índices de preços

Ligue (21) 3799-6844 | 0800-025-7788 (outros estados) ou clique aqui e faça sua assinatura para ter acesso a todo o conteúdo da revista

Subir