Parte de nossa pressão inflacionária é o mundo se recuperando
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Postado por Conjuntura Econômica
André Braz, coordenador dos índices de preços do FGV IBRE
Livio Ribeiro, pesquisador associado do FGV IBRE
Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
A contínua alta do dólar tem consolidado o prognóstico de que 2021 fechará com uma inflação acima da meta, de 3,75%. E boa parte dessa tendência, em especial no período mais recente, deve-se a fatores domésticos. A decomposição desse movimento cambial realizada por Livio Ribeiro, pesquisador do FGV IBRE, mostra que, no período entre 10 de dezembro e 20 de janeiro, diferencial de juros e fatores externos atenuaram a depreciação do real, que foi de 5,8% nesse período, quando a conjuntura doméstica respondeu por um movimento de 6,6%. “Já na janela entre 20 de janeiro e 23 de fevereiro, o real desvalorizou 2,4%, dos quais fatores domésticos representaram 1,9%, ou 75% da depreciação do período”, descreve.
Essa trajetória, entretanto, ainda representa pouco da inflação derivada de produtos cotados internacionalmente. No caso das commodities, diz Ribeiro, do aumento médio de 30% observado entre meados de dezembro e final de fevereiro, dois terços referem-se ao aumento do preço em dólar, e uma terça parte devido à depreciação do real. “Em condições normais de temperatura e pressão, no Brasil esse aumento seria suavizado em função de um choque favorável no câmbio, com preços de commodities mais elevados. Mas não é isso que temos observado”, afirma.
André Braz, coordenador de índices de preços do FGV IBRE, lembra que essa inflação de preços em dólar vem sendo observada desde o segundo semestre de 2020, com o reaquecimento econômico verificado em diversos países, e que tende a persistir como efeito de medidas expansionistas como o pacote fiscal do presidente dos Estados Unidos Joe Biden, e o avanço da vacinação conta a Covid-19. “À medida que a população vai sendo imunizada, os países se encaminham para a redução de restrições e a retomada de suas economias”, descreve. Braz afirma que os efeitos dessa normalização econômica no campo internacional têm se refletido tanto no Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), tanto para insumos da indústria quanto da agropecuária, como no Índice de Preços ao Consumidor (IPC), provocando um espalhamento da pressão inflacionária. “De meados de 2020 para cá, não houve trégua nos preços de soja, trigo, minério de ferro cobre, milho, além do petróleo, e a tendência é de que continuem em alta”, diz. E se em 2020 o impacto dessa pressão havia se concentrado nos preços dos alimentos – que responderam por 25% da inflação do ano – agora ela também se refletirá, diz Braz, no aumento de preços de bens duráveis como automóveis, máquinas de lavar, fogões – “bens que são construídos a partir do minério de ferro, que subiu quase 100% nos últimos 12 meses”, ressalta Braz –, e em preços administrados como o do transporte público. “Basta lembrar que cerca 30% do valor de uma passagem de ônibus é justificado pelo preço do diesel”, descreve.
Pelos cálculos de Braz, o IPCA pode fechar o ano em 4,3%, acima da previsão do último boletim Focus, de 26 de fevereiro, em que a mediana das expectativas de mercado coloca o IPCA em 3,87%, também acima da meta. Tanto Braz quanto Ribeiro apontam que não há muito o que fazer quanto a essa trajetória de preços em 2020. “Um aumento da taxa Selic em março só se refletirá na economia daqui 9 meses. Mas é uma sinalização importante de que a autoridade monetária está comprometida com a meta de inflação”, afirma Braz. “É preciso subir juros para evitar a contaminação das expectativas em 2022”, reforça Ribeiro, ressaltando a piora do quadro inflacionário em todos os vetores de análise. “O quadro da expectativa da inflação passada, refletida na inércia, piorou; o horizonte de 12 a 18 meses à frente piorou; a parcela da inflação que é importada piorou. Tudo isso vai na direção de agravar o balanço de riscos do BC”, diz Ribeiro, ao que ele soma a revisão, para baixo, da atividade econômica. “Apesar de ainda não sabermos a magnitude, o primeiro trimestre terá crescimento negativo, e
fica cada vez mais óbvio que o segundo trimestre está pelo menos prejudicado. Então é difícil que a ociosidade não aumente nesse cenário” afirma. Diferentemente do ano passado, entretanto, desta vez esse quadro será acompanhado de inflação crescente. “É uma combinação mais preocupante”, conclui.
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