Em Foco

“Odeio esse vírus”

Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro

Como deve ocorrer com milhões de pessoas mundo afora, aqui em especial, não há como deixar de pensar na pandemia. O assunto não sai da mídia, e a cada dia parece que o vírus chega mais perto. É um pesadelo que se prolonga pelas noites, com sonhos bizarros. O sono não é reconfortante. Ao abrir os olhos, a sombra da pandemia começa a ganhar vida, novamente. Para quem tem condições financeiras, tenta-se de tudo: exercícios físicos, relaxamento, yoga, respiração, meditação, medicamentos alternativos, se isolar em alguma casa alugada, de amigos ou própria, fora das aglomerações das capitais. Mas, se por algum tempo, a mente é desviada para o trabalho ou outras atividades, o espaço é curto: as notícias continuam a nos bombardear, não deixando que esqueçamos a catástrofe diária de mortos, infectados, desemprego, pessoas passando fome. É uma sensação que milhões devem estar sentindo.

A pandemia, onde o Brasil se tornou o epicentro, além das mortes, tem outras faces cruéis. Uma delas é o aumento da pobreza e de um contingente cada vez maior de pessoas que moram nas ruas, passam fome. Antes da pandemia, era raro ver moradores de rua no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Hoje, a quantidade de pessoas que dormem sobre os jardins projetados por Burle Max, é enorme. Muitas famílias, razoavelmente ainda bem vestidas, como se estivessem sido postas na rua de uma hora para outra, com malas, crianças, se espalham por boa parte dos 1.300 mil metros quadrados do parque, que abriga 11.600 arvores de 119 espécies. Fundado em outubro de 1965, a obra idealizada por Maria Carlota Costallat de Macedo, a Lotta, é uma das principais áreas de lazer a céu aberto da cidade.

A fome, um dos principais flagelos da humanidade, aumentou no Brasil com a pandemia. Na última quarta-feira, o jornal O Globo estampou em sua primeira página, foto de centenas de pessoas, no centro do Rio, em busca de comida, as chamadas quentinhas, distribuídas por entidades assistenciais. Mas se a pandemia gerou mais pobreza, também reduziu as doações à essas entidades, levando a uma escassez de comida. E isso está se repetindo em todo o país.

Estudo publicado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), criada em 2012, que reúne pesquisadores, estudantes profissionais de todo o país, trabalhando em rede, mostra que enquanto no período de 2004 a 2013 houve um aumento no número de famílias que estavam no que se denominou chamar Segurança Alimentar (SA), ou seja, que estavam fora dos limites da pobreza e da fome, as curvas começaram a se inverter, piorando, de forma acentuada, com a pandemia: dos 77,1% que estavam seguros em 2004, ou seja, sem risco da ameaça da fome, despencaram para 44,8% em 2020. Os que estavam na classe de Insegurança Alimentar Leve, subiu de 12,6% para 34,7%, um alerta para a piora da situação. E o contingente que se enquadrava no que se denomina Insegurança Alimentar Grave, ou seja, que passam fome, subiu de 4,2% para 9% (ver relatório completo do estudo). Nessa linha, estudo do FGV Social aponta que o número de pobres praticamente triplicou, saltando de 9,5 milhões em agosto de 2020 para mais de 27 milhões em fevereiro de 2021.

E quando as coisas estão ruins, uma nova aparece: a volta da inflação, especialmente dos alimentos, que piorou ainda mais a vida das pessoas que perderam emprego, dos mais vulneráveis. Nos últimos doze meses, terminados em março, a inflação de alimentos medida pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPC), do FGV IBRE, subiu 11,7%.

Estimativas sobre a segurança alimentar da população


Fonte: Dados reanalisados para a escala de oito itens, a partir das pesquisas: [1] Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
2003-2004 (IBGE); [2] Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2008-2009 (IBGE); [3] Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2013-2014 (IBGE); [4] Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018 (IBGE).

Com a pandemia não dando tréguas, sem vacinas suficientes, sem uma política centralizada de combate ao vírus, sem isolamento adequado, o vírus encontrou campo fértil para mutações, se espraiando pelo país. No último dia 6, o Brasil já era o 18º país do mundo com mais mortes por milhão de habitantes, posição que, infelizmente, pode piorar dado o descontrole da pandemia. Por regiões, a Centro-Oeste é a que mais contribui para esses números. Dentre as grandes metrópoles, a situação do Rio de Janeiro é a mais grave, com 2.178 mortes por milhão de habitantes. Devido ao caos que se instalou por lá há mais de dois meses, o Amazonas lidera essas tristes estatísticas como pode ser visto nas ilustrações abaixo. Ressalte-se que o Maranhão, um dos estados mais pobres da Federação, tem o menor número de mortos por milhão de habitantes até o momento.

Mortes Covid-19 por milhão no Brasil
(dados até 17h30 de 6 abril de 2021)


Fontes: Ministério da Saúde e Worldometer.

Há outro foco de apreensão: a contaminação e mortes de pessoas que, anteriormente, se presumia seriam mais imunes ao vírus, e que não fazem parte do grupo de risco, tem crescido no Brasil, onde a parcela da população ainda é jovem, diferente de países europeus e asiáticos. Temos, apenas, pouco mais de 9% da população com 65 anos ou mais. Embora não existam, ainda, dados consolidados que permitam uma análise mais aprofundada, no Brasil é crescente o número de pessoas fora do grupo de risco que buscam atendimento médico. Também cresce a quantidade de óbitos em faixas etárias abaixo dos 60 anos.

O gráfico mostra a distribuição da população, por faixa etária no mundo, destacando alguns países. Como ocorreu na primeira onda da COVID-19, países com população mais idosa foram os mais afetados, como na Itália, França, Espanha, Reino Unido, entre outros. Embora o grupo de risco continue sendo o mais vulnerável, agora em menor escala dada a vacinação, ainda que lenta, os mais jovens também começaram a ser contaminados, de forma mais intensa, na Europa e nos Estados Unidos.

Em princípio, nos países com uma população mais jovem, como a maioria da América Latina, a pandemia poderia ser menos devastadora. No entanto, alguns países se destacam com um elevado número de mortes por milhão de habitantes, como é o caso do Brasil, México e Peru. No nosso caso, as perspectivas são de piora desse quadro. A média móvel de mortes dos últimos sete dias, encerrada ontem, foi de 2.818, completando 78 dias com a média móvel acima de mil mortes diárias e quase duas semanas com essa média acima de 2.500 mortes. Só ontem, 4.190 pessoas morreram.

Mortes por milhão de habitantes no mundo
(em relação a população idosa – dados até 7 de abril)


Fonte: Banco Mundial.

 

Países com mais mortos por milhão de habitantes
(dados até 18h20 de 6 de abril de 2021)


*Em 28 de março de 2021, o México informou 95.150 mortes por Covid-19 que não constavam nos números oficiais, mas não refez a contagem oficialmente. Por isso, o Drive/Poder 360 somou o número de vítimas a mais que foi informado ao total divulgado pelo México em 6 de abril. **A Rússia revisou o número de mortos em 28 de dezembro. Foi de 55.200 para 186 mil. O governo não refez a contagem oficialmente. Por isso, o Drive/Poder 360 somou o número de vítimas a mais que foi informado ao total divulgado pela Rússia em 6 de abril. Fontes: IBGE (estimativa de habitantes de 2021), Ministério da Saúde (mortes no Brasil) e Worldometer (números sobres os países).

A vacinação, já está provado, é eficaz para reduzir a propagação do vírus. Embora ainda não haja um estudo conclusivo, o que deve ocorrer no próximo mês, o projeto-piloto do Instituto Butantan na cidade de Serrana, no interior de São Paulo, onde a população adulta está sendo vacinada, parece bastante promissor. Nos dois últimos dias, com 66% da população vacinada com a segunda dose da Coronavac, nenhum paciente estava intubado na Santa Casa ou na UPA da cidade. Na primeira quinzena de março, dos 100 atendimentos diários, 90 eram de suspeita da Covid-19, número que caiu para 40.

Outros estudos jogam esperança para o futuro. No Hospital das Clínicas de São Paulo (HC), a vacina do Butatan mostrou eficácia de 50,7% depois de duas semanas de aplicação em pessoal da saúde que trabalha no hospital e de 73,8% depois de três semanas. Em Manaus, estudo feito com profissionais de saúde da capital, evidenciou resultados semelhantes: com a aplicação apenas da primeira dose, a Coronavac teve uma eficácia de 50%, catorze dias após. Além disso, a vacina se mostrou eficaz contra a variante P-1.

Do Ceará, estudo da Escola de Saúde Pública Paulo Marcelo Martins Rodrigues, vinculada à Secretaria de Saúde do Estado, aponta que não houve aumento no número de casos nos profissionais de saúde que foram vacinados, apesar do crescimento de casos na população cearense em geral, como pode ser visto abaixo.

Casos positivos para Covid-19
(profissionais de saúde X população – Ceará)


Fonte: Escola de Saúde Pública Paulo Marcelo Martins Rodrigues, vinculada à Secretaria de Saúde do Ceará.

Outra face perversa dessa pandemia, pouco dita, é o estrago que está sendo feito na educação e na formação de gerações futuras. Segundo relatório da Unicef, entre 200 países, o Brasil ficou na 196ª posição em termos de dias em que as escolas ficaram totalmente fechadas por causa da pandemia, considerando-se o período de 11 de março de 2020 até 2 de fevereiro de 2021. Foram 191 dias no Brasil, segundo a Unicef, comparado a uma mediana de 67 dias para o conjunto de 200 nações. Em países como Estados Unidos, Suécia e Austrália, o número de dias com escolas totalmente fechadas foi zero.

O que é desastroso para o país em termos de formação de mão-de-obra qualificada e abertura de oportunidades de empregos mais qualificados para uma geração de crianças e adolescentes, especialmente para aquelas das faixas mais carentes da população, sem acesso a computadores e aulas remotas, como acontece na maioria das escolas privadas.

Laura, minha neta de 10 anos, resumiu bem, em um comentário à mãe, o sentimento de todos nós: “Odeio esse vírus”.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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