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Postado por Conjuntura Econômica
A cara do Brasil
Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro
Até ontem o Brasil havia garantido 19 medalhas nas Olimpíadas de Tóquio. Esportes que pouco acompanhávamos, como o skate e o surfe, que entraram nas competições, nos levaram a ficar horas diante da televisão vendo as manobras radicais dos atletas. Manobras, onde minha ignorância é abismal, como tubo, batida do lip, floater, rasgada, cut back, duck dive, passaram a fazer parte das minhas madrugadas ao acompanhar os brasileiros nas baterias classificatórias e final do surfe. Evidentemente, não entendi nada, a princípio, mas acabei sabendo distinguir, a duras penas, algumas dessas manobras com a ajuda, é claro, de quem fazia a transmissão.
No skate, a confusão foi aterradora. Um turbilhão de manobras, como bigspin, frontside, backside, varial flip, pop shove-it, que a cada apresentação dava um nó na minha cabeça, com a apresentadora descrevendo cada uma delas no espaço de 45 segundos, tempo que cada competidor tinha para fazer as suas manobras em seis apresentações. Não sabia que tínhamos pentacampeões mundiais. Que há uma legião de jovens brasileiros ranqueados nos primeiros lugares do mundo nesse esporte que entrou, agora, junto com o surfe, nas Olimpíadas. É um mundo paralelo, uma tribo, que vem levando o Brasil a uma posição de destaque no cenário mundial.
Mais afeito à ginástica artística, que já fazia parte de outras Olimpíadas, a tarefa foi menos dolorosa para entender o twist carpado, parafuso, mortal, tsukahara, avião, giro gigante, flic-flac, duplo carpado, entre outros.
As medalhas conseguidas no skate, três de prata, no surfe, ouro, e na ginástica artística, ouro e prata, tiveram o dom de fazer com que nós, brasileiros, nos esquecêssemos por algum tempo das graves feridas que estão abertas no país, com a crise sanitária, o aumento da desigualdade, do desemprego, da tensão política, com ameaças diárias sobre a democracia. Ontem, empresários, intelectuais, artistas, publicaram manifesto nos principais jornais do país defendendo a democracia, as eleições em 2022 e as urnas eletrônicas, que vem sofrendo ataques diários do presidente.
Ao ver esses atletas e suas conquistas foi como, de relance, estivéssemos vendo um país que deu certo ou estivesse a caminho de dias melhores.
O elo desses jovens, Rayssa, de apenas 13 anos, no skate, Ítalo, no surfe, e Rebeca, na ginástica, reflete a cara de nosso país. São atletas jovens, pardos ou pretos, nascidos de famílias pobres, que tiveram que superar barreiras consideradas intransponíveis pela cor da pele, falta de recursos, preconceito da sociedade.
Além deles, há muitos outros que chegaram a Tóquio, ganhando ou não medalhas, com o mesmo perfil: pobres, sem apoio, pardos ou negros. E só ver quem compete no atletismo, no boxe, para citar algumas modalidades.
A falta de um programa de preparação de atletas, como vemos em outros países onde a ligação com a Universidade é essencial para a formação de atletas, fragiliza e impede que possamos formar competidores de alto rendimento, capazes de disputar as várias modalidades de esportes, não só nas Olimpíadas, mas também em competições internacionais, com reais chances de sucesso.
Embora os recursos para o Bolsa Atleta, programa que financia atividades esportivas, tenham se mantido estáveis desde 2015, depois dos picos em 2013 e 2014, ainda são baixos para um país com mais de 220 milhões de habitantes e com alto potencial em várias modalidades esportivas. Até julho último, o valor foi de apenas R$ 49,8 milhões. Ou seja: num país como o nosso, com tantas desigualdades, só haverá resultados no esporte se a política esportiva estiver ligada à educação e houver empenho dos governantes para isso.
Mas não é só dar dinheiro. Tem que haver um planejamento, uma interação com escolas e universidades. A concessão de bolsas para os mais talentosos, é um caminho seguido por vários países. Os Estados Unidos são um exemplo disso. Por aqui, algumas universidades já dão os primeiros passos nesse caminho, o que possibilitou que muitos atletas pudessem se classificar para as Olimpíadas.
Coluna do jornalista PVC publicada na Folha de S. Paulo de ontem (05/08), traz uma interessante análise da trajetória de alguns países nas Olimpíadas. Ele cita um caso curioso. “Adhemar Ferreira da Silva, bicampeão olímpico no atletismo, foi demitido pelo prefeito Jânio Quadros na década de 1950, sob o pretexto de a prefeitura não poder admitir “vagabundos” na prefeitura. Adhemar era negro. Trinta anos mais tarde, Jânio proibiu o skate na cidade, porque era coisa de maconheiro”. Em Tóquio, os brasileiros ganharam três medalhas de prata.
Concessão do Bolsa Atleta
(valores em R$ milhões de julho de 2021)

Valores pagos. *Janeiro a julho. Fonte: Siga Brasil.
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A superação pessoal é a marca de alguns dos atletas vitoriosos nessas Olimpíadas. Alguns exemplos.
Rayssa Leal, prata no skate aos 13 anos de idade em Tóquio, carinhosamente chamada de Fadinha do Skate, é um desses casos. Nascida em Imperatriz, no Maranhão, desde os seis anos começou a praticar o esporte, ganhando um skate de seu pai. Vice-campeã mundial aos 12 anos de idade, se preparava para as Olimpíadas quando a Covid-19 adiou a competição e levou a família – pais, avós e Arthur, o irmão de seis anos em 2020, que também não sai de cima de um skate -, a uma severa quarentena. Como treinar diante de uma pandemia? Seus pais, Haroldo e Lilian, mesmo não sendo engenheiros, resolveram, em maio do ano passado, construir uma pista na chácara da avó materna, onde estavam confinados, para que a Fadinha pudesse fazer suas manobras radicais na pista improvisada.
Após ganhar a medalha nas Olimpíadas de Tóquio, recebendo R$ 150 mil, passou a estrelar vídeo publicitário da Nike chamado “Novas Fadas”, que já teve mais de 1,9 milhão de visualizações. A adolescente, que ficou conhecida como “Fadinha”, aparece com um par de asas nas costas enquanto faz manobras em um cenário urbano bem diferente dos contos infantis. A peça é embalada pela música “Um sonho é um desejo d’alma”, versão do compositor brasileiro Braguinha para a animação Cinderela da Disney de 1950.
Segundo o jornalista Léo Dias, do Metrópoles, Rayssa e sua família teriam, se negado a associar a imagem da jovem com políticos maranhenses “pois nunca teria havido apoio dos mesmos durante a trajetória da atleta no esporte”. Na reportagem, Dias afirma “que o pai da medalhista olímpica ia com frequência à Secretaria de Esportes de Imperatriz buscar auxílio, mas nunca obteve respostas”.
Italo Ferreira, que ganhou a primeira medalha de ouro no surfe em uma Olimpíada, é outro exemplo de superação. Filho de pescadores, nascido em Baia Formosa, no Rio Grande do Norte, cidade de 9,3 mil habitantes e salário médio de R$ 1,7 mil, começou a surfar com pranchas de caixas de isopor onde seu pai armazenava a pesca do dia, fascinado pelas manobras do Indio Voador, um morador local que surfava nas ondas de Baia Formosa.
Aos 10 anos, venceu a primeira competição local. Sem recursos, para surfar em Natal, era acolhido pela família de Beto Fagundes e Dona Nininha, moradores da capital do Rio Grande do Norte e que tinham casa em Baia Formosa, onde conheceram Ítalo nas suas primeiras incursões em cima das pranchas de isopor.
Sua vida começou a mudar quando, aos 12 anos, surfando na Praia de Ponta Negra, em Natal, foi descoberto por Luiz “Pinga”, então diretor de marketing de uma importante marca de surfe do mundo.
Rebeca Andrade, negra, nascida em Guarulhos, em São Paulo, só não desistiu da carreira pela insistência de Dona Rosa dos Santos, sua mãe, e de seus treinadores e amigos, depois de várias lesões e três cirurgias no joelho.
Aos 5 anos de idade, se encantou com a ginasta Daiane dos Santos, então campeã mundial que se classificou para a final olímpica, em Atenas, em 2004, terminando em 5º lugar, até então o melhor resultado do Brasil na ginástica artística. As duas medalhas conquistadas por Rebeca, ouro no salto sobre a mesa, e prata, no solo ao som do funk Baile de Favela, que ficou na cabeça de milhões de brasileiros, é um fato inédito na ginástica do país.
As medalhas, ou mesmo a simples presença de brasileiros nas Olimpíadas, lava, por um breve período, a nossa alma tão assombrada pelo desalento que nos assola. Como diz a música do Chico Buarque, “ a coisa por aqui está preta”.
Agradeço a Juliana Damasceno, pesquisadora do FGV IBRE, a pesquisa e fornecimento dos dados sobre o Bolsa Atleta.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.


