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O difícil caminho da inclusão

Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro

Como não é surpresa para ninguém, o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo. Segundo o Banco Mundial, somos o nono país mais desigual do planeta. O Relatório de Desenvolvimento Humano da ONU de 2019 mostrou que apenas 1% dos mais ricos detinha 28,3% da renda total brasileira, ou seja, quase um terço da renda do país estava nas mãos dos mais ricos. Se ampliarmos isso para 10% dos mais ricos, eles concentravam 42% da renda total. Quadro que, seguramente, avançou com a pandemia.

Com profundas diferenças regionais e elevada concentração de renda, galgar posições nessa sociedade tão desigual que vivemos requer um esforço hercúleo, o que me lembra, ainda que em outro ambiente, o título do filme dos irmãos Ethan Cohen, de 1980, “Onde os fracos não têm vez”, com a primorosa interpretação de Javier Barden. Na sociedade, os taxados “fracos” são os negros, pardos, mulheres e pobres, como se houvesse uma seleção natural.  

A profunda desigualdade é resultado de uma série de fatores que vão desde políticas sociais mal desenhadas a barreiras de entrada impostas pela sociedade para mulheres e, especialmente, para pessoas pretas e pardas. Embora essa situação esteja melhorando gradativamente, ainda é enorme a disparidade entre brancos e pretos no mercado de trabalho em cargos mais qualificados. O acesso à educação de qualidade é uma dessas barreiras, mas não a única.

O quadro abaixo é um retrato disso. Em cargos de chefia, como diretores e gerentes, a participação de pretos e pardos é menos de um terço da dos brancos, situação que vai se alterando à medida que as profissões requerem menos qualificação ou uma formação mais técnica. É importante destacar o caso das Forças Armadas, polícias e bombeiros, onde a maioria é de pretos e pardos.

% ocupados nos diferentes grupos ocupacionais


Fonte: IBGE/PNADC (quarto trimestre de 2020). Elaboração: Laísa Rachter – pesquisadora do FGV IBRE.

 

Salário Hora
(em reais)


Fonte: IBGE/PNADC (quarto trimestre de 2020). Elaboração: Laísa Rachter – pesquisadora do FGV IBRE.

Renê Garcia Junior, secretário de Fazenda do Estado do Paraná, é um exemplo de como a educação pode auxiliar a galgar posições na sociedade. Com 17 anos ingressou na Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getulio Vargas (FGV EBAPE), com uma bolsa de estudos.

“Só fui conhecer o racismo depois que sai da Fundação Getulio Vargas. Devo ao Mário Henrique Simonsen tudo que consegui na minha vida profissional. Fui protegido, resguardado. Todos os empregos que tive foram indicações do Simonsen. Langoni (Carlos Geraldo, falecido no último dia 13 de junho), também me auxiliou muito em minha trajetória profissional.”

Renê, quando entrou na EBAPE, também fazia economia na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), o que o levou a fazer doutorado na FGV EPGE, credenciais relevantes, junto com as indicações de Simonsen, para que tivesse uma importante carreira no setor privado.

Oriundo de uma família, por parte de mãe, que teve algum prestígio na época da borracha, no Amazonas, prestígio que desapareceu com a falência dos negócios, pouco conheceu o pai e seus avós paternos, sendo criado pela mãe, como milhões de famílias Brasil afora.

“A Fundação representou uma ilha de proteção, mesmo num ambiente hostil para pessoas como eu. No segundo ano já tinha uma sala, era monitor, recebendo um salário-mínimo que era uma fortuna na época, representante de classe. Com as credenciais da FGV e o apoio do Simonsen, aos 24 anos já era diretor das Organizações Globo. Fui muito protegido pela FGV. Sem ela, seria mais um crioulo, com características bem diferentes daquelas que a sociedade elege como vencedoras. Uma das situações mais constrangedoras por que passei na vida foi quando um vice-presidente de uma grande instituição financeira recusou meu aperto de mão”, relata Renê.

Na última segunda-feira (5), Vilma da Conceição Pinto, uma jovem negra, nascida de uma família pobre de Niterói, no Rio de Janeiro, teve seu nome referendado pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), do Senado, para assumir uma diretoria-executiva da Instituição Financeira Independente (IFI). E na quarta-feira (7), seu nome foi aprovado no Senado.

É a primeira mulher a assumir essa vaga e a primeira negra. Vilma, filha de Jorge Henrique, pescador, já falecido, e de Maria Carmélia, que era gari, foi a única dos seis filhos do casal a chegar à universidade, tendo sua vida pontuada por grandes dificuldades financeiras. Dos seis filhos, alguns completaram o ensino médio e outros não conseguiram.

Enfrentou tudo com enorme tenacidade e apoio de sua família, formando-se em economia na Universidade do Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e mestrado profissional na FGV EPGE. Entrou como estagiária no FGV IBRE em 2012, especializando-se no estudo e avaliação das contas públicas, tornando-se uma referência do tema no país, sendo assessora do secretário de Fazenda do Estado do Paraná, o economista Renê Garcia Junior. 

“Meu irmão trabalhava em um escritório de contabilidade e uma vez me chamou para fazer uma faxina lá. Fiquei tão exausta com o trabalho que, naquele dia, disse para mim mesma: não é isso que quero para a minha vida. Foi aí que mergulhei mais nos estudos. Mas, além da educação, um ponto importante é ter políticas públicas que incentivem às famílias a ter seus filhos na escola. Lembro que na minha infância muitas meninas minhas amigas não iam à escola, enquanto meus pais sempre incentivavam isso. Especialmente no meu caso que sempre gostei de estudar”, diz Vilma.

A busca por emprego, após se formar, sempre foi frustrante. Apesar de ser uma excelente aluna, sempre com notas altas, fez várias entrevistas em empresas privadas, mas nunca conseguiu uma colocação. Acabou indo trabalhar no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de onde saiu para ingressar no FGV IBRE como estagiária na área de contas públicas, área que se especializou.

Os casos de inclusão de pretos no mercado de trabalho, embora apresente sinais de melhora, ainda está anos luz de qualquer avaliação considerada razoável, o que se reflete nos rendimentos pagos, bastante inferiores aos recebidos pelos brancos.

Renda do trabalho domiciliar
2020


Fonte: IBGE. Elaboração: Daniel Duque – pesquisador do FGV IBRE.

 

Rendimento Médio Mensal


Fonte: IBGE/PNADC (segundo trimestre de 2020). Elaboração: Laísa Rachter – pesquisadora do FGV IBRE.

Laísa Rachter, pesquisadora do FGV IBRE, filha de mãe branca e pai negro – seus avós paternos eram preto e índio; os maternos brancos – uma das principais especialistas no estudo sobre gênero e inclusão social no país, explica que as chamadas barreiras de entrada de pretos no mercado de trabalho podem estar associadas a dificuldades no acesso à educação, mas também podem estar relacionados às normas sociais que mudam os custos que essas pessoas enfrentam na hora de escolher uma profissão.

“Também podem ser obstáculos que podem se apresentar na forma de discriminação no próprio mercado de trabalho, seja na hora da contratação ou mesmo no dia a dia das empresas, que acabam afetando desproporcionalmente essas pessoas. Todas as barreiras, principalmente a barreira à aquisição de capital humano, é reforçada pelo meio que as pessoas vivem (em inglês, environmental barriers), que incluiu, entre outras coisas, a falta de orientação e exposição a carreiras em ciência e inovação na infância”, diz Laisa.

Taxa de Desocupação


Fonte: IBGE/PNADC. Elaboração: Laísa Rachter – pesquisadora do FGV IBRE.

 

Crescimento da População Ocupada


Fonte: IBGE/PNADC. Elaboração: Laísa Rachter – pesquisadora do FGV IBRE.

Estudos realizados por pesquisadores brasileiros e norte-americanos mostraram que o desenvolvimento de capital humano aumentou a produtividade e a eficiência econômica, graças ao início de uma mudança da sociedade que está possibilitando que pessoas negras e mulheres ocupem cargos mais qualificados, antes barrados devido a cor da pele e sexo.

“Por causa da característica de nossa sociedade, as pessoas podem não escolher exatamente aquilo no que são boas. Se você for muito bom jogando futebol, você provavelmente vai querer ser profissional (...). Mas, caso haja alguma barreira de entrada, você talvez nem tente se tornar um jogador e acabe indo fazer algo em que você, particularmente, não é tão bom”, disse à BBC News Brasil Chang-Tai-Hsieh, um dos autores do estudo e pesquisador da Universidade de Chicago.

Um exemplo citado pelos autores do estudo é o de Sandra Day O`Connor, primeira juíza mulher da Suprema Corte dos Estados Unidos, de 1981 a 2006. Mesmo com suas qualificações acadêmicas – uma das melhores de sua classe na Universidade de Stanford –, ela só encontrava empregos de baixa remuneração como secretária jurídica. Só dez anos depois de formada, conseguiu um trabalho no meio jurídico.

“Se você fosse mulher no início de 1950, saberia que era difícil conseguir um emprego e, se advogada, não deveria nem se preocupar em tentar. Você saberia que suas chances eram zero, então por que tentar”, explica Hsieh, acrescentando que “a má alocação de capital humano é um dos reais motivos pelo qual uma sociedade é pobre”.

Conforme a pesquisa mencionada na reportagem de Vinicius Pereira da BBC News Brasil, “entre 20% a 40% do crescimento do PIB per capita dos Estados Unidos, entre 1960 e 2010, pode ser atribuído à entrada de mulheres brancas, mulheres pretas e homens pretos em profissões mais qualificadas. No Brasil, os dados preliminares sugerem que o impacto é parecido com o que ocorreu nos EUA”.

Laísa, do FGV IBRE, explica que “a nova situação das mulheres no mercado de trabalho, especialmente em ocupações mais qualificadas, influencia a produtividade agregada da economia. Esses movimentos podem ajudar quando eles reduzem a barreira da discriminação no mercado de trabalho”.

Pete Klenow, PhD em economia pela Universidade de Stanford, um dos autores do estudo, explica que “vemos amplo espaço para crescimento futuro se as barreiras caírem ainda mais. Em particular, estimamos que o PIB acabaria sendo 10% maior sem barreiras. Isso equivale a cerca de uma década de crescimento do PIB por trabalhador”.

Ver o webinar A Inserção das Mulheres no Mercado de Trabalho

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Depois de se manter por um bom tempo em alta ou estabilizada acima das duas mil mortes, a média móvel de óbitos no Brasil iniciou uma inflexão para baixo. A vacinação, que está se acelerando no país – até ontem, 51,2% da população com mais de 18 anos havia recebido a primeira dose, enquanto 18% tinham sido totalmente imunizados –, é a responsável por isso.

No Chile, um estudo feito com 10,2 milhões de chilenos entre os dias 2 de fevereiro e 2 de maio último, mostrou que a CoronaVac tem uma eficácia geral de 65% contra o vírus. Também protege com uma taxa de 87% contra internações, 90% contra a necessidade de internações em UTIs e 86% no caso de mortes.

Brasil: mortes COVID-19
(média móvel de 7 dias)


Fonte: Consórcio de Veículos de Imprensa a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde.

 

Brasil: novos casos COVID-19
(média móvel de 7 dias)


Fonte: Consórcio de Veículos de Imprensa a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde.

Agradeço a Silvia Matos o apoio na elaboração do gráfico sobre a média móvel de mortes e novos casos no Brasil.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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