Em Foco
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Postado por Conjuntura Econômica
Choque de realidade
Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro
16 de março de 2020. Reunião no 11º andar no IBRE, o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), para informar que entraríamos em isolamento, passando a trabalhar em home-office. Nesses mais de um ano e três meses, seguimos à risca às regras de isolamento, uso de máscaras, higienização das mãos. Buscando isolamento ainda maior, viajamos umas três ou quatro vezes para lugares mais isolados. O medo era grande.
À exceção de caminhadas no aterro do Flamengo nos finais de semana, sempre de máscara, e procurando desviar das pessoas, algo angustiante dada as nossas origens latinas onde está enraizado o contato físico, saídas do apartamento só em casos excepcionais, como ir ao médico, ao dentista.
Enclausurado no apartamento, essa semana saímos para um compromisso no coração de Copacabana, por onde não íamos desde março do ano passado. Foi como estivéssemos entrando em um outro mundo, um mundo paralelo ao que estamos vivendo.
Centenas de pessoas, muitas sem máscaras, transitavam pelas ruas da avenida Nossa Senhora de Copacabana, uma das principais artérias da Zona Sul do Rio. Foi um choque de realidade. A vida pulsa forte fora das quatro paredes de um apartamento, mesmo com a pandemia ainda sem controle.
Bares, restaurantes, lojas de sucos, de roupas, sapatos, lavanderias supermercados, tudo cheio. Apinhado de gente, muitos camelôs, num intenso ir e vir, chegando a criar “congestionamento” em alguns pontos das calçadas. Carros e ônibus, alguns desses lotados, serpenteando pela Nossa Senhora, num movimento intenso, semelhante aos dias normais, antes do desembarque da COVID-19 por aqui.
Por mais que tenha conhecimento de que as ruas, os bares, as praias estavam lotados pelas imagens de televisão, fotos nos jornais, relatos de amigos, vivenciar isso foi um choque de realidade, uma realidade paralela ao mundo que muitos, como eu, ainda estamos vivendo, mantendo o isolamento. É possível que minha ingenuidade tenha contribuído para essa surpresa.
Com tanta gente na rua e a baixa imunização – pouco mais de 16% dos brasileiros tomaram as duas doses –, dá um frio na barriga pensar que uma nova onda posse explodir a qualquer momento. É evidente o cansaço das pessoas enclausuras há tanto tempo. As centenas que caminhavam pelas calçadas da Nossa Senhora de Copacabana e artérias adjacentes, estavam retornando a vida normal, em busca de emprego, trabalhando, fazendo compras. Depois de tanto tempo, parece que o medo cedeu, embora ainda estejamos longe de ter segurança de que a pandemia começa a ser controlada. Um amigo me disse, recentemente, que os ocidentais não dão muito valor à vida. Não seguem as restrições sanitárias, preferindo sair, ir a bares, restaurantes, praias, ter contato físico, do que ficar isolado. A morte seria uma consequência quase que natural.
Somos latinos, onde o contato, a necessidade de se encontrar, pulsa nas veias. Está no nosso DNA. Muito diferente dos orientais. Ficar em isolamento é, sem dúvida, angustiante. Como segurar em casa adolescentes e jovens por tanto tempo?
Mas há boas notícias: parece, salvo novos contratempos, que a vacinação ganhou nova tração com muitos estados antecipando seus calendários de vacinação. A taxa de contaminação no Brasil essa semana, medida pelo Imperial College, de Londres, ficou abaixo de 1, em 0,87, o que sinaliza menor contágio e possibilidades de um maior controle sobre a expansão do vírus.
No entanto, os números da pandemia ainda são cruéis, com mais de 520 mil óbitos. Neste primeiro semestre, o número de infectados no Brasil chegou a 10,9 milhões, nos aproximando dos Estados Unidos com 13,3 milhões. Brasil, Índia e Estados Unidos são responsáveis por quase 40% das mortes registradas no mundo e por 46% dos infectados, desde que a pandemia começou.
Outra questão preocupante: tem muita gente que não está voltando para tomar a segunda dose da vacina, essencial para completar o processo de imunização. No Rio, estima-se em cerca de 200 mil pessoas. E há um movimento de escolha de vacina. Muitos postos estão ficando vazios quando a vacina oferecida é a CoronaVac. Mesmo com a AstraZeneca tem gente torcendo o nariz: querem a Pfizer. Isso vai atrasar a imunização de grande parte da população, abrindo um perigoso flanco para o vírus se propagar ainda mais.
Mortes Covid-19
(Dados acumuladas a cada mês – 2021)

Fontes: Consórcio de Veículos de Imprensa a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde e The New York Times.
Mortes Covid-19
(Brasil – dados mensais)

Fonte: Consórcio de Veículos de Imprensa a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde.
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Uma questão dessa pandemia que ainda não tem resposta concreta e que tem preocupado milhões de pessoas que tomaram a CoronaVac, como boa parte dos brasileiros que já se vacinaram com o imunizante, é sua efetividade ante o vírus. O caso do Chile é um exemplo que precisa ser acompanhado, já que os casos de contágio e mortes tiveram um pico em meados de junho mesmo com os quase 12,5 milhões de chilenos vacinados com a primeira dose, ou 82,2% da população, e 10,3 milhões com duas doses, equivalente a 67,7%, segundo Enrique Paris, ministro da Saúde chileno. Com isso, o Chile está perto de sua meta de vacinar três quartos da população, índice considerado suficiente para atingir a chamada imunidade de rebanho, ou seja, quando grandes surtos da doença se tornam bastante improváveis. Mais de três quartos da vacina aplicada nos chilenos foi a Coronavac.
Mas depois do pico em meados de junho, os casos regrediram. No último dia 26 do mês passado houve uma queda de 26% nos infectados em todo o país, em relação à semana e aos catorze dias anteriores, conforme o Ministério da Saúde que acrescentou que, “atualmente, grande parte das pessoas que estão sendo infectadas são jovens, não imunizados, ou que receberam apenas uma dose”.
Perto de “90% das pessoas que estão sendo hospitalizadas não estão imunizadas”, segundo Gabriel Cavada, especialista em bioestatística da Faculdade de Saúde Pública da Universidade do Chile. Outro elemento que não pode ser descartado, como diz Cavada, é “um certo clima de desconfiança nas autoridades” e, por tabela, nas iniciativas de órgãos públicos que poderia estar afastando muitos chilenos da vacinação. Um problema que não é só deles.
A América do Sul está sendo duramente atingida pela pandemia. Como vem ocorrendo em quase toda a região, no Chile o surgimento de variantes do vírus, a diminuição da percepção de risco da população, o contágio em pessoas com faixa etária mais jovem – o que vem sendo observado por aqui, também –, a chegada do inverno, são fatores que fizeram a curva da COVID-19 embicar para cima em meados de junho que fechou com um número recorde de mortes medida pela média móvel encerrada no dia 30 do mês passado. Foi o maior número de óbitos desde 30 de julho do ano passado.
O comportamento da população é apontado por especialistas como o principal responsável pelo crescimento dos contágios. Depois de situações em que se alternou um abre e fecha na economia, os chilenos estão cansados, perdendo o respeito pelas medidas de isolamento, não só por razões econômicas, mas também mentais. O que ocorre aqui e em outras partes do mundo, à exceção dos países asiáticos.
Chile – média móvel de casos e mortes de Covid-19


Fonte: Worldometer.
Embora com eficácia menor que a da Pfizer, a CoronaVac tem se mostrado eficiente como apontam alguns estudos. Em Serrana, no interior de São Paulo, a vacinação em massa da população adulta, estimada em 45,6 mil pessoas com a CoronaVac, mostrou uma queda acentuada das mortes e infecções. O governo de São Paulo anunciou, na última quarta-feira (30), que houve redução nas internações de pessoas com 60 anos ou mais de janeiro para junho, que recuaram de 58% para 25%. No mesmo período, os pacientes internados em UTIs também diminuíram: de 61% para 28%. A maioria da população de São Paulo que já se vacinou recebeu a Coronavac. Estudo feito no Chile mostra o comportamento da vacina chinesa ante a Pfizer.
Eficácia das vacinas
(14 dias após a 2ª dose)

Fonte: Ministério da Saúde do Chile.
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Em vários Em Foco que tenho escrito semanalmente, invariavelmente menciono as várias faces perversas dessa pandemia, seja pelas mortes, por desestruturar famílias, levar muitas empresas à falência, criar um atraso monumental na educação das crianças, na perda de renda e emprego, no surgimento de dois mundos paralelos, um com os países mais ricos vacinando sua população mais rápido que os países pobres e em desenvolvimento, possibilitando uma recuperação mais rápida das economias desenvolvidas.
Embora a concentração de renda nas mãos de uma pequena parcela da população tenha começado a se acelerar há uma década como mostra estudo recente do Crédit Suisse, a pandemia manteve essa disparidade alargando ainda mais esse fosso entre ricos e pobres. Levantamento da Comissão Econômica Europeia para a América Latina (Cepal), mencionada no Em Foco de 18 de junho último, sinalizava que das 164 milhões de pessoas que estavam na linha da pobreza em 2012 na região, pularam para 209 milhões no ano passado.
Como já mencionado em textos anteriores deste espaço, a desigualdade e pobreza são os principais desafios que as nações terão que enfrentar. A ampliação da diferença entre pobres e ricos, é um poderoso combustível para quebra de institucionalidade e surgimento de regimes autoritários.
E a história está cheia de exemplos disso.
Concentração de renda – países selecionados

Fontes: James Davies, Rodrigo Lluberas e Anthony Shorrocks, Crédit Suisse Global Wealth Report Databook 2021.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.


