“Desaceleração do mercado de crédito deve ser desafio para o governo chinês em 2021”

Livio Ribeiro – pesquisador do FGV IBRE

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro 

Após a China fechar 2020 como o único país entre os grandes a registrar crescimento econômico, com 2,3%, a expectativa para este ano é de que a expansão do PIB chinês se aproxime de dois dígitos, com 9,2% pelas estimativas de Livio Ribeiro, pesquisador do FGV IBRE. Ainda que seja uma grande expansão, deverá evoluir em um ritmo oposto ao do ano passado – marcado por forte retração no primeiro trimestre devido à pandemia, para no segundo semestre superar o ritmo pré-Covid-19, formando a tão desejada recuperação em V. Em 2021, o forte do crescimento deverá se concentrar no primeiro trimestre, para desacelerar no restante do ano, especialmente no segundo semestre. “O carregamento da força da economia especialmente no quarto trimestre de 2020 deverá colaborar para um crescimento de 18,2% no primeiro tri; na segunda metade do ano, a tendência é de desaceleração, com uma velocidade de crescimento mais normal para o padrão chinês”, afirma. 

Em participação na Live do Valor na última sexta-feira (29/1), entrevistado pela repórter do jornal Lucianne Carneiro, Ribeiro indicou vários elementos a favor do país nesse controle fino da desaceleração. Além do bom ponto de partida forjado no fim do ano passado, ele cita a vacinação e o forte pacote de estímulos nas economias desenvolvidas, além de uma ampla margem que a China ainda tem para lidar com a necessidade de alguma política contracíclica pontual. “Do lado monetário, a inflação é baixa e abre espaço para manobra, ainda que a ideia do governo não seja essa. E, do fiscal, a expansão de déficit primário que a China registrou em 2020 ficou aquém do nível que havia colocado como teto, de 8% do PIB, assim que há alguma gordura para queimar.” Para Ribeiro, um dos pontos mais delicados nessa trajetória de reversão do ritmo de crescimento será a desaceleração do crédito, que começou a ser coordenada pelo governo desde o ano passado. “No mercado imobiliário, por exemplo, desde setembro o governo começou a fazer ajustes prudenciais que levam à desaceleração de incorporações. Houve também redução da oferta de colateral para shadow banking, portanto o crédito agregado tende a se desacelerar”, afirma. Ribeiro ainda cita que o crescente número de defaults em títulos de empresas  paraestatais nos setores de tecnologia e consumo verificado no final de 2020 afetou o custo de capital, o que tende a inibir novas captações. “A base desfavorável - levando em conta que no ano passado o crédito amplo na economia chegou a subir 100% no ano contra ano, mais precisamente do segundo para o terceiro trimestre - e esse grupo de eventos poderão provocar um buraco de crédito na economia em 2021, e o governo terá de lidar com isso. Não acho que leve a uma ruptura de cenário, mas é um elemento que deverá ficar no radar”, avalia. 

Outro elemento citado por Ribeiro que merecerá destaque em 2021 é a nova configuração da guerra comercial entre China e Estados Unidos com o governo de Joe Biden. Para o pesquisador, é improvável que a escalada tarifária imposta por Donald Trump retroceda - “a pressão de parte do setor empresarial americano e da que acha que a China rouba emprego e tecnologia existe sem Trump” -, mas considera que a meta de redução do superávit chinês na relação comercial com os norte-americanos tenderá a ser secundária nessa relação. “Quando houve o acordo comercial no final de 2019, estabeleceram-se metas que, ao menos em energia, agricultura e bens industriais não foram entregues em 2020, com cumprimento de apenas 58%”, aponta. “Em geral, essas reduções, como no setor de energia, eram evidentemente inexequíveis; há também o fator pandemia, mas acho que essa meta numérica é lateral. A questão comercial é a ponta do iceberg da batalha de quem será hegemônico nos próximos 25 anos”, diz Ribeiro. E, nesse campo, Biden pode tornar a vida muito mais difícil aos chineses, ao voltar aos principais fóruns multilaterais abandonados por Trump, o que permitiu à China projetar poder. 

Retomada de mestre

Na entrevista ao Valor, Ribeiro também recordou as condições particulares que fizeram o país sair da pandemia com PIB de 2,3% - o pior resultado do país desde 1976, mas acima das expectativas de mercado. O primeiro ponto, característico dos países asiáticos em geral, é o maior nível de aceitação de controle estatal, com um monitoramento individual que permitiu o planejamento de medidas de isolamento restritas e mais focadas - às vezes, a apenas um bairro ou condomínio. “Além disso, asiáticos culturalmente são menos afeitos ao toque, e já tinham absorvido o hábito de usar máscaras desde o episódio da Sars, em 2002”, diz. Outro fator importante é a composição do PIB chinês, em que a indústria tem participação maior do que a média mundial, o que ajudou a atividade a cair menos, já que as medidas de restrição se focaram muito mais no setor de serviços, e a se recuperar mais rapidamente. “Além disso, sociedades asiáticas, em especial a chinesa, têm um nível de poupança elevada. Em 2018 - último dado comparável internacionalmente -, a China registrava uma taxa de poupança de 45% do PIB, sendo metade concentrada nas famílias”, descreve. O controle financeiro do governo permite que esses recursos sejam direcionados a setores selecionados, em um subsídio cruzado entre famílias e empresas. E que, em 2020, foram injetados na chamada “velha China”, em segmentos como infraestrutura e construção civil, que abriram o caminho para a recuperação. 

“Quando veio a Covid-19, o governo decidiu não inventar e fez o que sabia. Não à toa, a composição do PIB do ano passado é basicamente concentrada no investimento, que cresceu 2,2%, contra uma retração de 0,5% no consumo agregado”, compara. Isso significa que a trajetória de reformas foi abandonada? Para Ribeiro, não.  Apenas que optou por uma atuação emergencial frente a um buraco na estrada. “Tanto que a China já está buscando mitigar os problemas decorrentes da estratégia de 2008/09, quando o país optou por políticas expansionistas que bombaram o PIB, mas também implicaram aumento de endividamento e bolhas imobiliárias”, pontua. Ribeiro ressalta que o plano de transformação do padrão do crescimento chinês persiste - e que isso deveria estar muito mais presente no radar da política comercial brasileira. “Além de não se limitar a ser uma fabricante de bens intermediários - o que a torna uma indústria geradora de mais valor agregado, de salários mais altos que abrem espaço para mais consumo -, a China também se empenha em um processo organizado de diferenciação estratégica de oferta de insumos, explorando especialmente o potencial da África”, diz. “Não é algo que mudará em um ou dois anos, mas em cinco, dez. Temos que começar a pensar estrategicamente em como lidar com a excessiva dependência das importações chinesas, e com a possibilidade de que esse país passe a demandar menos. É um debate imprescindível, que se chama planejamento.”

Em 2021, evolução do PIB chinês tomará caminho contrário ao de 2020, desacelerando no segundo semestre
Crescimento do PIB chinês (AsA)

Fonte: NBS.


Veja a íntegra da Live do Valor com Livio Ribeiro

 


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