Conjuntura Econômica

Sem âncora fiscal, política monetária perde força, defendem economistas em webinar FGV IBRE e Valos Econômico

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

A crise extraordinária provocada pela Covid-19 suscitou medidas de suporte de proporções extraordinárias em muitos países, tanto no campo monetário quanto no fiscal, mitigando parte dos efeitos da pandemia em seu momento mais crítico. Daqui para frente, entretanto, serão as diretrizes dadas no campo fiscal que influirão nas condições de recuperação dos países, bem como na potência da política monetária para manter as condições financeiras em bom caminho. Essa foi uma das mensagens dos participantes do webinar “Recuperação Econômica e a Política Monetária”, promovido dia 8/9 pelo FGV IBRE em parceria com o Valor Econômico, moderado pelo jornalista José Roberto Campos, editor-executivo de Opinião do jornal.

No evento, José Julio Senna, chefe do Centro de Política Monetária do FGV IBRE, ressaltou que, daqui para frente, corrigir as disfuncionalidades do mercado já não será mais a fonte de preocupação dos governos, mas sim o futuro das políticas de estímulos às economias.  “É um desafio gigantesco, pois há vários fatores dificultando uma recuperação mais forte, a começar pelas características das economias no momento em que a pandemia acontece”, afirmou, lembrando que no pré-Covid os países avançados já apresentavam sintomas relacionados à chamada estagnação secular, como alta propensão a poupar e reduzida da propensão a investir. “Provavelmente, o que a pandemia traz é uma acentuação desses problemas que já tínhamos, ampliando o grau de incerteza quanto ao futuro, aumentando as preocupações com a saúde.” No Brasil, diz Senna, o quadro não é diferente, mas por razões distintas: “a dificuldade em sair de um quadro recessivo severo que se sobrepôs a quatro décadas de crescimento econômico medíocre”, lembrou, apontando que nas últimas quatro décadas o PIB per capita brasileiro cresceu menos de 1% ao ano em média, e a produtividade, menos de 0,5%.

 “Não sabemos o que virá para frete, mas considero que deveremos conviver com um elevado grau de incerteza – também inibidora de investimentos – ainda por bastante tempo, o que pode agravar a tendência que já vínhamos observando antes da Covid-19”, reiterou. “Muita gente tende a minimizar essa preocupação apontado à recuperação da atividade em setores como indústria e varejo, e à boa perspectiva para o PIB no terceiro trimestre. Mas minha preocupação é do quarto trimestre em diante.”

No caso brasileiro, Affonso Celso Pastore, da AC Pastore, enfatizou a os riscos de uma expansão fiscal além de 2020, com uma flexibilização do teto de gastos, para o manejo da dívida pública. O ex-presidente do Banco Central apontou que a queda na participação de não-residentes entre investidores em títulos da dívida mobiliária e na B3 soma R$ 56 bilhões nos últimos 12 meses, e que uma percepção crescente de risco fiscal poderá complicar ainda mais o horizonte de financiamento da dívida. “O Tesouro agora terá que rolar toda a dívida que vence em 2020 e ainda colocar 14% do PIB, que é o déficit primário que tivemos que fazer em títulos novos”, lembrou.  Para Pastore, caso o governo sinalizar respeito à manutenção do teto de gastos, essa tendência de piora de perfil tende a se regularizar, “pois sinaliza que a relação dívida/PIB voltará para um padrão sustentável, mesmo que os gastos cresçam no curto prazo, e a intolerância à dívida desaparece”, disse. “Do contrário, quanto maior for o risco de insolvência – e esse risco cresce conforme o tamanho e a dinâmica da dívida –, maiores serão os prêmios de risco de títulos mais longos.”

Mario Mesquita, economista-chefe do Itau Unibanco, lembrou que, no médio prazo, esse risco tende a se estender à inflação. “Hoje vemos um aumento no IGP-M (alta de 13,2% em doze meses até agosto). Já temos algum repasse cambial, e impacto da alta das commodities. Isso ainda não se traduz em inflação ao consumidor devido à severidade da crise. Mas poderá se converter em pressão quando a economia mostrar mais dinamismo”, disse. Para Mesquita, a preocupação sobre um impacto inflacionário futuro se dá pelo histórico de desancoragem de expectativa de inflação no Brasil que, segundo o economista, acontece quando há choque na inflação de curto prazo. “Quando isso acontece, os analistas passam a se perguntar: o BC terá condições de reagir para trazer inflação para a meta, por exemplo, daqui dois anos?” A resposta, afirmou, está na manutenção do regime fiscal, citando o economista americano John Cochrane, que diz que países conseguem rolar bem sua dívida quando têm um “decente plan” para se manter solventes. “Desde 2016, nosso ‘plano decente’ 2016 tem sido o teto de gastos. Passamos por um processo de ajuste fiscal muito gradualista, não geramos superávit em nenhum momento, mas este não explodiu. O auxílio emergencial foi importante este ano, mas a questão é o futuro”, reforçou. Vemos uma pressão grande para extravasar o teto, e acho que o grande tema de política econômica daqui para o final do ano será como e em que medida encontraremos espaço dentro do teto para ampliar transferências sociais de forma permanente. Não sei se será encaminhado com êxito, mas isso vai ditar – não só o futuro do programa de assistência – mas as perspectivas de fluxo de capital do país e o comportamento da taxa de câmbio”, afirmou. 

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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