China

“Maior cuidado sobre economia chinesa deve estar no balanço de riscos futuros”, diz Livio Ribeiro, do FGV IBRE

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

A divulgação do PIB chinês do terceiro trimestre, feita na semana passada, apontou que o país se mantém no caminho da recuperação dos impactos da pandemia, ainda que em velocidade mais lenta do que o mercado esperava – com uma expansão de 4,9% em relação ao mesmo período do ano anterior, contra uma expectativa média de 5,5%. Esse ralentamento, entretanto, não é motivo de preocupação, para Livio Ribeiro, pesquisador do FGV IBRE. Especialmente quando se observa que parte dessa desaceleração é reflexo de escolhas do próprio governo chinês.

Ribeiro lembra que os indicadores de mais alta frequência dos meses de julho e agosto apontavam uma melhora inequívoca dos números, com os dados qualitativos dos PMI’s indicando aceleração tanto nas manufaturas como em serviços, com praticamente todos os segmentos industriais chegando ao terreno expansionista, o que inclui as ordens de exportação. A recuperação da demanda externa, lembra, era uma das fontes de preocupação para a China, já que no restante do mundo a pandemia chegou depois, o que implicaria um atraso na recuperação da demanda externa em relação à doméstica. “Na nossa modelagem, a bola de curva claramente aconteceu no mercado de construção civil, porque a média de junho, julho e agosto era crescente, sugerindo que o dado de setembro viria forte. O que acabamos observando, entretanto, foi que as vendas desaceleraram, ainda que se mantendo no terreno positivo. Mas as novas construções reverteram para contração no ano contra ano”, conta.

Ribeiro aponta, entretanto, que esse movimento pode ser reflexo de uma mudança recente feita pelo governo nas regras de financiamento, que coloca travas à possibilidade de operadoras contraírem dívidas para expandir seus projetos. “Esse é um fator com inúmeras implicações: afeta a receita das municipalidades, na arrecadação tributária em leilões de terra, e chega até ao shadow banking, já que o principal colateral usado nessas operações são os ativos imobiliários”, descreve, indicando que sua estimativa era de que esse efeito seria percebido a partir do quarto trimestre, mas que pode ter se antecipado.

Para o pesquisador, o maior ponto de atenção quanto à economia chinesa se concentra no balanço de riscos futuros, conforme ele descreve no Boletim Macro Ibre de outubro. “Desse balanço fazem parte as implicações de novas ondas de contágio na Europa e na América, bem como a conjuntura geopolítica”, enumera, ressaltando que as pressões contra o país no âmbito internacional não se limitam ao futuro presidente dos Estados Unidos. “A discussão sobre o mercado de 5G é outro ponto de tensão que envolve mais economias, como Inglaterra, Austrália e, no sudeste asiático, países como Índia e Paquistão, que somam outros contenciosos tecnológicos, como o do Tik Tok”, enumera. Ribeiro também cita dentro desse balanço a evolução dos ajustes prudenciais em curso na economia chinesa, como o mencionado no setor de construção, que pode significar “menos crescimento, porém com perfil mais estável, a prazos mais longos”, conclui.

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