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Entrevistas 04 ago 2021
“A cada crise, o setor formal encolhe cerca de 4% na América Latina”
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Postado por Conjuntura Econômica
Joana Silva, economista sênior do Banco Mundial
Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
O livro Empregos em Crise – Trajetória para Melhores Empregos na América Latina Pós-COVID-19, do qual é coautora, apresenta efeitos de crises econômicas passadas no mercado de trabalho dos países da região. Levando em conta as características distintas da crise da Covid-19 – como ter sido originada fora do sistema econômico, e pressionar por uma reorganização dos sistemas produtivos, com aumento da digitalização –, qual impacto espera que a pandemia traga para o emprego no longo prazo?
Ao analisar as grandes crises anteriores, o que mostramos é que de fato a recuperação do emprego na América Latina tem sido um pouco mito. O que acontece é que a trajetória do emprego muda e permanece abaixo da trajetória original muito depois de a crise ter terminado e o PIB ter retomado sua trajetória anterior. Nesse sentido, como esta crise agrava a incerteza, e seus efeitos não vêm só por problemas na demanda, mas na oferta, ela tende a acelerar tendências que vinham acontecendo. Entre elas, a digitalização, que requer trabalhadores mais qualificados. Assim, é provável que, tal como em crises anteriores que analisamos, haja efeitos mais prolongados e mais severos para os trabalhadores não qualificados. E que poderá levar até quase uma década para que estes recuperarem o nível salarial e de emprego de antes da crise.
No Brasil, o choque sanitário chegou quando a economia ainda não havia se recuperado da última recessão – na qual, por sua vez, a retomada do emprego estava se dando muito mais na informalidade. Também deveremos ver essa tendência agravada?
Quando analisamos os dados dos últimos 20 anos nos diferentes países da América Latina, agregados para emprego formal, informal e total, identificamos que a cada crise o tamanho do setor formal encolhe cerca de 4% e a recuperação é feita praticamente através do setor informal. Nesse sentido, o fato de esta crise chegar em meio à recuperação da recessão anterior no Brasil leva a que seus efeitos possam ser ainda mais profundos, e mais graves quanto à destruição de emprego formal.
Vocês apontam no livro que choques também podem trazer efeitos positivos para a eficiência econômica, com empregados e capital migrando para negócios mais produtivos. Mas que economias mais protecionistas e menos competitivas perdem a oportunidade de capturar esse ganho. Essa característica é uniforme na América Latina e o Caribe?
O que vimos no nosso estudo é que, em termos de resposta às crises, há três dimensões muito importantes. A primeira é a dimensão macroeconômica de prevenir crises. Ou seja, evitá-las tem a ver com políticas monetária e fiscal prudentes. Mas também vimos que algumas crises são inevitáveis, vão acontecer, e aí é importante ter espaço fiscal para responder. Nesta crise, os governos na América Latina responderam de forma mais vigorosa, o que foi bastante importante, mas demanda espaço fiscal. Também dizemos que países em que há políticas de seguro-desemprego, essas servem como estabilizadores automáticos. Mas esses estabilizadores não têm funcionado plenamente na região, porque do ponto de vista da cobertura, se limita aos trabalhadores formais, e cerca de 60% da força de trabalho é informal.
No Brasil, temos uma estrutura robusta voltada ao empregador formal que perde o emprego, e na outra ponta existem as transferências não-contributivas, sendo a principal o Bolsa Família, para mitigar a pobreza extrema. Com a pandemia, entretanto, passou-se a destacar a necessidade de um braço de apoio intermediário, aos trabalhadores informais, como menciona, cuja volatilidade de renda é alta. Quais seriam os arranjos mais virtuosos para apoiar esse grupo?
Na pandemia, o que vimos em alguns países foi um apoio temporário ao trabalhador que perde o emprego, independentemente de serem formais ou não. O que sugerimos é que esse tipo de apoio seja quase automático nas economias, sendo acionados a partir do momento em que o desemprego alcance determinado nível. Em uma economia cada vez mais digital, também é importante pensar em novos mecanismos que os tradicionais de seguro-desemprego, para ajudar os informais a lidarem com outros riscos associados à perda de emprego, como enfrentar problemas de saúde. O que também indicamos como muito importante é combinar apoio financeiro com qualificação profissional, gerando trampolins para que voltem ao mercado de trabalho.
Outra dimensão que tratamos no livro é a necessidade de se resolverem problemas estruturais dos países da região, como a baixa abertura econômica e concorrência frente ao mercado internacional. Estar aberto à concorrência colabora para o vigor da recuperação econômica, pois permite que empresas sejam dinâmicas, mais produtivas, tendo flexibilidade para se adaptar, crescer e gerar mais empregos.
No caso da necessidade de se desenvolverem políticas de apoio ao reemprego e à requalificação, esse é um tema que se tem debatido no Brasil (veja a Carta do IBRE da edição de agosto da Conjuntura Econômica). Quais as diretrizes que precisam ser observadas para se construir frentes bem-sucedidas nesse campo?
O estudo analisa experiências tradicionais sobre programas qualificação e políticas ativas de emprego em vários países. O que elas mostram é que o sucesso não é garantido. Vários programas, internacionalmente, sequer ultrapassam a barreira do custo-benefício. E há outros que são extremamente bem-sucedidos. O que essencial é, por um lado, estar muito alinhado com a demanda local, para qualificar visando a um emprego no final do treinamento. Também é importante monitorar os alunos no final do curso para avaliar os resultados: se encontraram emprego nas mesmas áreas em que foram treinados, quanto tempo levaram para conseguir um emprego, por quanto tempo se mantêm nesse trabalho. Isso são aspectos importantes para avaliar o que funciona ou não. E, depois, agir sobre essa avaliação, expandindo as iniciativas mais bem-sucedidas e ajustar as que apresentam problemas. Nesse sentido, então, o que a experiência mostra é que é importante avaliação, monitorando junto à demanda. E também é importante garantir que os treinamentos sejam dados por provedores de qualidade, estreitamente relacionados ao setor privado para que entendam sua demanda e estejam alinhados com as práticas do mercado de trabalho.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.


