Barômetros globais refletem que variante Delta, problemas de suprimento e pressão de preços são preocupações mundiais

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Os Barômetros Globais da Economia divulgados hoje (10/8) pelo FGV IBRE registram novo recuo tanto do indicador coincidente, que indica a situação atual da economia, quanto do antecedente, que antecipa ciclos de crescimento em três a seis meses. Paulo Picchetti, pesquisador do FGV IBRE, aponta que tais resultados refletem que as fontes de preocupação observadas no Brasil para a retomada também estão presentes na maioria dos países. “Apesar de a recuperação econômica continuar seu curso, o receio sobre a evolução do contágio com a variante Delta, a indisponibilidade de matérias-primas e a pressão de preços preocupam os atores econômicos. E talvez indiquem que, apesar de a recuperação estar em curso, esta pode não ser tão vigorosa quanto imaginávamos há um ou dois meses”, afirma. Picchetti também destaca que, a partir do segundo semestre, a base de comparação passa a ser mais forte que o segundo trimestre de 2020, influenciando nos números de expansão.

Picchetti exemplifica que a trava no fornecimento de semicondutores e seu impacto na produção de veículos, que paralisa linhas de montagem no Brasil, também está afetando a atividade do setor nos Estados Unidos, Alemanha e Japão. “E, ligada a isso, vem a questão de custo. Quando se tem restrição de oferta - seja de semicondutores, aço, insumos industriais em geral - há aumento de custo, que em alguma medida é repassado para preços”, descreve, apontando o reflexo desse encadeamento na política monetária das principais economias. “Apesar de os bancos centrais da Europa e Estados Unidos não terem expressado claramente que a evolução dos preços está indo além do que estão dispostos a tolerar, analistas já buscam nas entrelinhas dos comunicados sinais de quando a política de estímulos monetários poderá se esgotar”, diz. Para o pesquisador, a incerteza sem precedentes que dominava o cenário econômico no final de 2020 tornou difícil prever tamanha extensão do problema na cadeia de abastecimento da indústria. “Foi impossível traçar um padrão com base em algum episódio que tenha acontecido nos últimos cem anos para prognosticar a profundidade e a extensão do problema e dizer com mais segurança: estamos com essa escassez de matérias-primas, mas em ‘xis’ meses ela tende a se normalizar. E isso inviabilizou qualquer expectativa mais positiva”, diz.

Expectativas setoriais no mundo
variação, em pontos, dos Barômetros Globais da Economia


Fonte: FGV IBRE.

No agregado, os indicadores coincidentes dos Barômetros Globais registraram uma variação de -7,86 pontos, contra -10,6 em julho. Construção foi o setor que apresentou a melhora mais expressiva, saindo de uma queda de 13,1 pontos para um recuo mais suave, de 1,18. Já comércio e serviços retraíram mais do que no levantamento anterior: anotaram, respectivamente, -4,59 e -8,9, contra -1,6 e -5,7 pontos. “Apesar dessa queda quantitativamente maior, o setor de serviços já não se mostra mais na contramão dos demais, e a tendência é de que continue sua recuperação”, diz Picchetti, ressaltando que no Barômetro Antecedente, que foca a situação futura, esse resultado já se inverte: a indústria perde 8,12 pontos em relação ao resultado anterior, enquanto serviços registra -2,02. Nesse indicador, apenas o setor da construção registrou variação positiva, de 1,93 ponto. Outro fator que deve ser ponderado em relação ao resultado mais recente de serviços é que o setor liderou a reação das expectativas este ano, posicionando-se acima do nível da economia em geral, que inclui segmentos como o financeiro e o de infraestrutura.

Quando observado por regiões, os resultados apontam a um recuo generalizado, sendo mais acentuado na Ásia, Pacífico e África - onde o principal peso é o da economia chinesa. “A China não deixa de ser dependente do que acontece no resto do mundo, e sente esse movimento também”, diz Pichetti.

Livio Ribeiro, pesquisador associado do FGV IBRE especialista em China, ressalta que a persistência da desorganização das cadeias de suprimentos, somada a choques na demanda por produtos chineses, já aparece nos PMIs do país, com recuo nos índices de importação e nas ordens de exportação. Ribeiro também aponta que, na região, a variante Delta já passa a influenciar na evolução desse desequilíbrio. “É preciso lembrar que a China tem sua rede de suprimentos espalhada pelos países da região, e que estes estão discutindo, ou já implementaram, novas medidas de isolamento, como é o caso da Malásia”, diz. Ele ainda lembra que, no caso dos semicondutores, a pandemia chegou no momento em que a China buscava reordenar sua cadeia de suprimentos - preocupada em eliminar sua dependência de produtos americanos, reflexo da guerra tecnológica travada entre ambos os países -, o que colaborou para esse desarranjo. 

Desorganização das cadeias e choques de demanda por produtos chineses se refletem no PMI's


Fonte: NBS. Elaborado por BRCG.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

Subir